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Imagens de Minas Gerais entre os séculos XVIII e XX

Talles Luiz de Faria e Sales

Imagens de Minas Gerais entre os séculos XVIII e XX

A proposta procura analisar a genealogia e o funcionamento poético de imagens recorrentes na literatura brasileira, com ênfase nas representações de Minas Gerais, tendo em vista que as primeiras imagens do Brasil são apresentadas por viajantes estrangeiros que têm como referente a comparação com os espaços europeus, do que decorre uma clivagem ambígua a ser enfrentada pelos escritores brasileiros que procuram descrever a natureza, os sujeitos e a sociedade brasileira formados a partir da feitura do Brasil como empreendimento colonial, do que deriva uma “discrepância”, em termos hegelianos, modulada reiteradamente ao longo da história cultural e intelectual brasileira, nas perspectivas pelas quais se procura perceber o país e o povo novo que se forma a partir dele. Desse modo, procede-se especialmente a um diálogo com a obra de Sérgio Buarque de Holanda, naquilo que enfatiza acerca das imagens do Brasil e do tema do desterro na própria terra com relação à experiência brasileira, bem como com a obra de Darcy Ribeiro, por sua teoria original sobre o caso brasileiro e pela resposta que oferece a tais impasses através do realce que confere à mestiçagem na formação do brasileiro como um povo novo. De modo a circunscrever o corpus de análise, optou-se pela abordagem da literatura produzida a partir do estado de Minas Gerais entre os séculos XVIII e XX, delineando um arco de longa duração que compreende uma geopoética do território mineiro ao partir dos mitos e lendas configuradores da geografia imaginativa dos “sertões ocidentais”, passando pelas primeiras obras escritas no século XVIII, como as de Antonil e Nuno Marques Pereira, pela poesia de Cláudio Manuel da Costa, pelos relatos dos viajantes científicos europeus que visitaram e pesquisaram o território de Minas Gerais nas primeiras décadas do século XIX, até a independência política brasileira e as produções literárias que se lhe seguem, como as de Bernardo Guimarães, Helena Morley, Cornélio Penna, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, João Guimarães Rosa, dentre outros que, e evidentemente não de forma exaustiva, entretêm um diálogo literário acerca da configuração geopoética mineira. Dada a imersão a um só tempo geopoética e imagética da proposta, as formulações de Didi-Huberman acerca da forma do atlas em Aby Warburg possuem também função de destaque, bem como são operatórios conceitos mobilizados das obras de Walter Benjamin, Ernst Bloch, György Lukács, dentre outros, de modo a se observar em que medida as visões do Brasil por seus próprios escritores nacionais são consonantes e/ou dissonantes das visões estrangeiras a respeito deste mesmo país, aproximando-se e/ou desassociando-se de um teor imagológico, ao mesmo tempo em que formulam estratégias e mecanismos linguísticos e literários para tal.

Futuro do passado: modernismo e anacronia

Victor da Rosa

Futuro do passado: modernismo e anacronia

A respeito da célebre viagem dos modernistas às cidades históricas mineiras em 1924, Brito Broca se questiona como é possível que os nossos “homens do futuro”, ao receber um poeta de vanguarda em visita ao país, vão mostrar a ele justamente as velhas cidades mineiras, com suas igrejas do século XVIII, seus casarões coloniais e imperiais, uma “paisagem tristonha, onde tudo é evocação do passado” e onde tudo sugere ruínas? Se tal viagem, nesse sentido, parece um contrassenso, e não deixa de ser a seu modo, o historiador argumenta que havia uma espécie de lógica interior no caso, afinal a paisagem barroca de Minas surgia aos olhos dos modernistas “como qualquer coisa de novo e original, dentro, portanto, do quadro de novidade e originalidade que eles procuravam”. Mais do que isso, porém, tal “atitude paradoxal dos viajantes” talvez possa também abrir, ou ao menos sugerir, a possibilidade de conceber de uma nova maneira o problema do tempo no interior do modernismo brasileiro, não exatamente como ruptura, e sim como anacronismo, dinâmica singular em que distintas temporalidades convivem no mesmo lugar.

Daí que, a partir da intuição de Brito Broca,  a presente pesquisa tome o conceito de anacronismo tal qual elaborado por Georges Didi-Huberman para compreender não só a viagem dos modernistas a Minas, mas também outros momentos-chave do período: a noção de “bárbaro tecnicizado”, as técnicas de montagem oswaldianas, o profundo e genuíno interesse de Mário de Andrade pela tradição misturado a uma imaginação do futuro e finalmente a própria Semana de Arte Moderna, evento em que as experiências mais vanguardistas e passadistas conviveram de formas distintas e variadas. Nessa pequena história anacrônica do modernismo brasileiro, talvez a viagem a Minas seja um momento decisivo – eis uma hipótese – quando se reconhece que o futuro, na verdade, reside também na ruína, a exemplo dos casarões mal conservados de Ouro Preto, reconhecimento a que Oswald deu o nome de Pau Brasil, livro que em grande medida rearranja restos dos textos coloniais, e que provocou em Tarsila do Amaral o estranho desejo, naquele momento, em meio aos debates sobre a arte do futuro, de se dedicar à prática da conservação.

Dimensões e nomeações do Moderno nas Artes Visuais em Belo Horizonte nas primeiras décadas do século XX: mulheres artistas na cidade

Rita Lages Rodrigues

Dimensões e nomeações do Moderno nas Artes Visuais em Belo Horizonte nas primeiras décadas do século XX: mulheres artistas na cidade

Drummond, em seu poema As moças da Escola de Aperfeiçoamento, versa sobre a mudança nos ares da cidade nos anos 1930 trazida pela presença das modernas professorinhas oriundas de cidades do interior de Minas, a partir do projeto da Nova Escola efetivado pelo governo mineiro: “E são assim tão modernas/tão chegadas de Paris/par le dernier bateau”. A presença feminina moderna vem, também, do interior. Do interior de Minas trazem Paris. A pesquisa aqui apresentada busca analisar a presença de artistas mulheres na cidade de Belo Horizonte nas primeiras décadas da capital de Minas, perscrutando as dimensões presentes nos usos do adjetivo Moderno, como em  Arte Moderna, Cidade Moderna, dentre outros. Duas artistas são escolhidas como ponto de partida da reflexão: Zina Aita, belorizontina de nascimento, responsável pela primeira exposição de arte moderna na cidade em 1920 e participante da Semana de Arte Moderna de 1922, e Jeanne Louise Milde, que vem para Belo Horizonte em 1929 inserida no projeto de modernização de ensino, baseado na Escola Nova, proposto por Francisco Campos.

A presença destas duas mulheres, assim como a das jovens professoras apresentadas por Drummond, aponta novos caminhos para a existência feminina no espaço urbano, um espaço que se pretende moderno, cosmopolita, e dialeticamente mostra-se também repleto de tradições e de conservadorismos. Uma dimensão fundamental da pesquisa proposta é a análise das nomeações do que seria o moderno em Belo Horizonte. Seja na autonomeação da artista Jeanne Milde como “moderna, mas com uma base clássica”, seja na nomeação nas décadas aqui analisadas, seja nas nomeações a posteriori realizadas por estudiosos ao tratarem a exposição de Aita como sendo a primeira exposição de Arte Moderna na capital. O trânsito de pessoas, o trânsito de mulheres artistas entre o Brasil e a Europa, carrega a dimensão do moderno/cosmopolita em múltiplas direções. Assim, o objetivo da pesquisa é realizar um estudo sobre a presença feminina nas artes visuais da cidade de Belo Horizonte sob a chave do moderno, da modernidade, dos modernismos, pretensamente universais, do cosmopolitismo e ao mesmo tempo do significado local dado à palavra moderno pelos habitantes da urbe de 1900 a 1930. 

Corpos femininos no espaço da cidade, ocupando novas funções profissionais e transitando pelas ruas, trariam esta dimensão cosmopolita para o tecido urbano? A partir da pesquisa realizada em jornais publicados em Belo Horizonte de 1900 a 1930, busca-se o significado de moderno naquele momento. Estas duas personagens, mesmo que não tragam na totalidade de suas obras a marca do modernismo das vanguardas artísticas do início do século, como é o caso da produção de Jeanne Milde, trariam em si, em suas presenças, a marca do moderno.

O intercâmbio literário entre Minas, São Paulo e Rio de Janeiro nos anos 60, na correspondência de Maria Lysia Corrêa de Araújo

Myriam Ávila

O intercâmbio literário entre Minas, São Paulo e Rio de Janeiro nos anos 60, na correspondência de Maria Lysia Corrêa de Araújo

A escritora Maria Lysia Corrêa de Araújo (1922-2012), autora de Em silêncio (contos – prêmios Fernando Chinaglia e Adelino Magalhães, Sec. de Cultura RJ, 1974), Um tempo (novela, 1985), além de livros infantis e infanto-juvenis, é desconhecida de grande parte dos estudiosos da literatura no Brasil de hoje, apesar de ter obtido algum relevo na cena literária brasileira nos anos 70 e 80 do século passado e integrar o Dicionário crítico de escritoras brasileiras, organizado por Nelly Novaes Coelho, além da antologia Escritoras de ontem e de hoje, organizado, entre outras, por Constância Lima Duarte. O interesse mais amplo da pesquisa proposta passa menos pela ficção de Maria Lysia que por sua trajetória como postulante a escritora nos anos 60, período em que conviveu com alguns dos maiores nomes da cultura e da literatura brasileiras em São Paulo e no Rio de Janeiro, cidades onde viveu e trabalhou no serviço público federal, tendo como atividade colateral o teatro.  Formada pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, fundada por Alfredo Mesquita, Maria Lysia teve como colegas de escola ou de palco alguns dos principais atores e dramaturgos brasileiros, como Plínio Marcos, Aracy Balabanian, Maria della Costa, Sérgio Cardoso, entre outros.  Trabalhou, entre outros, sob a direção de Henriette Morineau e José Celso Martinez Corrêa. No cinema, participou do filme São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person, um ícone da cinematografia brasileira. Conheceu e foi amiga dos escritores Lígia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade. Com este último, teria mantido correspondência ainda não localizada. 

A abordagem assenta-se no interesse acadêmico em conhecer e interpretar uma década, a de 1960, de grande agitação e mudanças na história do Brasil e da sociedade brasileira. Culminando com os eventos de 1968, data marcante não só em nosso país, mas na Europa e Estados Unidos, a década de 60 trouxe novas perspectivas sociais e políticas, com destaque para a industrialização do país, a metropolização das cidades e a crescente importância do transporte aéreo. Nas artes, os avanços incluíam a arquitetura de Niemayer, a introdução de uma nova dramaturgia nos palcos e na recém criada televisão, a bossa nova e seus corolários na música popular, a consolidação de uma literatura de contornos inéditos, com Guimarães Rosa, Clarice Lispector e o sempre novo Carlos Drummond.  

Maria Lysia escolheu ter uma vida literária em São Paulo e Rio de Janeiro durante os anos 1960. Extrovertida e receptiva a críticas e conselhos dos pares, movimentou-se bem pelas duas capitais, como mostram as cartas, registros em que as condições e aspectos dessa movimentação pela cena cultural daquela década se revelam em cores vivas.

Poéticas dos corpos nas dramaturgias e nas cenas pretas

Marcos Alexandre

Poéticas dos corpos nas dramaturgias e nas cenas pretas

A proposta é um dos desdobramentos de meu projeto de pesquisa Poéticas dos corpos: encruzilhadas, identidades, memórias, movências na arte e na literatura fomentado com a bolsa de produtivamente do CNPq. O desenvolvimento da proposta me permitirá dar continuidade ao tema da investigação que venho realizando em relação às poéticas pretas no tocante às diversas formas de representação e de representatividade das personagens/personas estudadas e analisadas em obras de autores da literatura brasileira e latino-americana, mas, aqui, nesta proposta, enfatizando as áreas artísticas, por meio das práticas performáticas, focalizando, principalmente, os teatros negros desenvolvidos em Belo Horizonte e em alguns centros urbanos brasileiros. A proposta visa a contribuir, a partir de abordagens comparativas, para os estudos relacionados com as práticas das Alteridades em suas relações com o Outro, tendo as “poéticas dos corpos” como fonte primordial de pesquisa para analisar, ler e discutir obras – autobiográficas e ficcionais (dramaturgias, espetáculos, narrativas, poesias, performances) sobre temas voltados para meus interesses de investigação: afetividades, corporeidades, corpos e corpas dissidentes, identidades, memórias, mitos, performatividades, subjetividades, teatralidade, teatros negros, ritualidade. 

Acervo Sábato Magaldi: tratamento, inventariação e figurações do crítico

Elen de Medeiros

Acervo Sábato Magaldi: tratamento, inventariação e figurações do crítico

O crítico teatral mineiro Sábato Antônio Magaldi, um dos principais nomes da crítica teatral moderna no Brasil, possui vasta produção sobre os autores mais salientes de nossa historiografia teatral. Iniciou sua atuação como crítico no Rio de Janeiro, para posteriormente seguir para São Paulo, onde, além de crítico, tornou-se também professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. Foi, também, Secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Como pesquisador, foi responsável por estudos sobre a obra de Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade, Jorge Andrade, Augusto Boal, Plínio Marcos, dentre outros. No campo da historiografia teatral, publicou obras que marcaram gerações. Seu acervo pessoal, doado à UFMG em 2017, destaca-se, portanto, como rico material de investigação teatral, tanto no que concerne o campo da crítica quanto da historiografia do teatro brasileiro e ocidental. Composto por sua biblioteca particular, diversos tipos documentais, além de mobiliário e outros itens, o Acervo Sábato Magaldi encontra-se atualmente em processo de inventariação, trabalho realizado sob a coordenação da profa. Elen de Medeiros, com a participação de diversos bolsistas e voluntários. A seguir, após a finalização da elaboração do arranjo total do Acervo Sábato Magaldi, todo material poderá ser disponibilizado para o público, a fim de alimentar pesquisas de caráter histórico-crítico do teatro brasileiro. 

Mobilidade e cosmopolitismo nos livros infantis de Ziraldo

Andréa Borges Leão

Mobilidade e cosmopolitismo nos livros infantis de Ziraldo

Não foi com as aventuras dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo que sonhava o menino Ziraldo Alves Pinto na cidade de Caratinga dos anos de 1930. Filho de um comerciante e de uma costureira que também sabia fazer livros de papel, Ziraldo imaginava aventuras no espaço sideral, personagens astronautas e heróis de histórias em quadrinhos. Desenhando na escola e ilustrando os livros de casa, o menino tomou gosto pela escrita. Em 1969, Bacharel em Direito e morando no Rio de Janeiro, lança seu primeiro livro infantil, Flicts, o mais traduzido entre todos. A partir daí, conquista por meio da editora Melhoramentos um lugar importante no mercado editorial brasileiro. Na década de 1980, a literatura infantil se inscreve no desenvolvimento de uma indústria do livro produtora de padrões universais que justificam a sua exportação mundial − antes mesmo da telenovela. A indústria cultural trouxe com ela um nova geração de escritoras e escritores, José Mauro de Vasconcelos, Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Ziraldo. Face à interdição dos espaços de produção intelectual pela censura, esse grupo passa a discutir o país, a política e a cultura no livro infantil. 

Para Ziraldo, os anos 1970 foram passando pelo humor e as charges políticas no jornal O Pasquim. O livro menino maluquinho, de 1980, expressa esse movimento. Não por acaso, o escritor diz ter feito do desenho narrativo arte aplicada, ligando a ponta da feitura à do entendimento. De mãos dadas com as crianças Ziraldo atravessou fronteiras nacionais, temporalidades e, até hoje, aos 90 anos, segue encantando gerações. 

Gostaria de testar a hipótese de que o cosmopolitismo do escritor como disposição íntima e relação social provoca identificações e assegura a mobilidade de seus personagens e livros. Para tanto, proponho o estudo da mobilidade dos livros infantis de Ziraldo, relacionando-a aos processos de sua formação e experiência profissional. As ondas de traduções do Flicts, assim como os destinos internacionais dos títulos das séries “meninos” e “meninos e planetas” são os objetos do estudo. A migração do texto por universos linguísticos implica novas autorias e, por conseguinte, transposições do significado. O desenho narrativo pode mostrar a intenção original sendo refeita em universos estéticos de recepção. Cabe saber de que modo a cultura visual de Ziraldo imaginada em um país de língua portuguesa, periférico e historicamente importador, favorece a ampliação do leitorado, alterando os sentidos dos textos. 

Projeto literatura e biopolítica: os romances da decadência

Wander Melo Miranda

Projeto literatura e biopolítica: os romances da decadência

Uma das possibilidades de se entender a prosa moderna brasileira é o estudo da obra de Cornélio Penna, Lúcio Cardoso e Autran Dourado, autores voltados para a abordagem da decadência da família patriarcal brasileira, em nítida contraposição ao acelerado processo de modernização em curso nos anos 1950 e 1960. Ler esses autores a partir de uma perspectiva biopolítica se oferece como nova possibilidade de elucidação de questões literárias, históricas e políticas, apresentadas de maneira a dar uma forma original ao corpo social, tendo em vista, segundo Jean-Luc Nancy, que escrever é tocar o corpo com o incorpóreo do sentido, “tornando o incorpóreo tocante”. Ou ainda, segundo Roberto Esposito: “Não coincidindo nem com a pessoa nem com a coisa, o corpo humano abre um ângulo de visão externo que projeta uma sobre a outra”, abrindo-se, por sua vez, a possibilidades insuspeitadas de relação entre corpo e escrita.

Tome-se como exemplo a relação entre o corpo doente de Nina e a ruína da chácara dos Menezes em Crônica da Casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso, ou a presença fantasmagórica da personagem a que se refere o título A menina morta (1954), de Cornélio Penna, para ficar nos anos 1950, ou, se quisermos avançar um pouco no tempo, a figura solitária de Rosalina, em Ópera dos mortos (1967), de Autran Dourado. Nada mais inatual, artística, social e politicamente e, no entanto, nada é mais contemporâneo nosso, do que esses romances escritos e publicados a partir do decênio de 1950, no momento em que o país se empolga com a construção de Brasília no planalto central e com a abertura da moderníssima rodovia Transamazônica, ou se vê confrontado com o processo de modernização autoritária promovido pela ditadura civil-militar a partir de 1964.

Esses romances se apresentam como corpos significantes, voltados para uma cerrada introspecção que, paradoxalmente, deixa ver sua inscrição política: se a política é o que desloca um corpo do lugar ou que muda o destino de um lugar, ela faz então ver “o que não tinha razão para ser visto, faz escutar um discurso onde só o ruído tinha lugar”. Cabe então perguntar de que forma se constitui literariamente esse discurso, como se configura, nesses termos, a relação entre público e privado, como se configura o objeto verbal lhe dá forma. Para responder a essas e outras indagações, bem como retomar a relação entre literatura e biopolítica, pareceu um caminho pertinente e ainda pouco trilhado em se tratando das obras e autores citados, bem como de outras produções similares.

Três missivistas mineiros: modernismo, sociabilidades e arquivos da formação

Rodrigo Jorge Ribeiro Neves

Três missivistas mineiros: modernismo, sociabilidades e arquivos da formação

Em 15 de janeiro de 1926, Pedro Nava escreve carta a Mário de Andrade, em que lhe agradece o recebimento de fotografias dos quadros de Tarsila do Amaral que faziam parte do acervo do escritor paulista. Como parte de seu empenho pedagógico, voltado em especial aos moços, Mário remete ao então jovem poeta e desenhista mineiro alguns dos exemplares das tendências da arte moderna naquele tempo, discutindo outros procedimentos e referências estéticas ao longo da correspondência. Outro integrante dos “Intelectuais da Rua da Bahia”, ou “Grupo do Estrela”, Carlos Drummond de Andrade, pouco depois da passagem da Caravana Paulista por Minas Gerais, em 1924, resgata o contato com Mário, por meio de carta em outubro desse ano, a fim de “prolongar aquela furtiva hora de convívio com seu claro espírito”. Além da profunda e mútua relação intelectual e afetiva, o diálogo também ensejou a constituição do papel de Drummond como elemento difusor e aglutinador entre os outros jovens intelectuais mineiros. Por fim, destaco a figura de Rosário Fusco, em especial quando se muda de Cataguases, Minas Gerais, para o Rio de Janeiro e se torna membro da Casa do Estudante do Brasil (CEB), onde se aproxima do então esquerdista Carlos Lacerda. Fusco contribui decisivamente para a aproximação de Lacerda com Mário de Andrade e na organização de uma das primeiras conferências do escritor paulista na então capital federal.

A presença de Mário de Andrade como fator entre os três escritores se deve tanto pela sua representatividade no modernismo quanto na configuração das sociabilidades por meio dos missivistas mineiros. Entretanto, os diálogos epistolares expõem também a importância da mobilização dos mineiros em seus respectivos espaços de atuação intelectual e política, não apenas como agenciadores programáticos, mas também como proponentes de ideias e referências. Além de espaço de construção e encenação das personæ do sujeito, a carta se mostra, assim, como um “arquivo da formação”. Portanto, com este projeto pretendo discutir os modos como se articulam os papéis desses correspondentes no modernismo, considerando também, ao longo da pesquisa, outros missivistas, haja vista o caráter remissivo do gênero epistolar, de modo a contribuir para o debate sobre as relações entre o localismo e o cosmopolitismo na cultura brasileira.

Drummond residual

Clara Rowland

Drummond residual

Partindo de uma leitura das diferentes figurações e configurações do fantasma na obra de Drummond, esta proposta procura sondar a relevância da espectralidade para a poética do autor através da interrogação cruzada de duas linhas de investigação: 1) o vínculo entre infância, Minas, interpelação e enigma; 2) a articulação entre uma poética da catacrese, fundada sobre a interrogação de palavras incorrespondentes, e a inscrição de restos ou resíduos como formas espectrais (e resistentes) da poesia de Drummond.

Guimarães Rosa, a cachaça e os labirintos da língua-fera

Maurício Ayer

Guimarães Rosa, a cachaça e os labirintos da língua-fera

A cachaça está presente em todo o território brasileiro e se reconhece como um elemento de unidade cultural do país. Também se espalha pela obra de João Guimarães Rosa, a começar pelos contos de Sagarana. Ali, no Corpo de Baile e no Grande Sertão: Veredas, participa como um ingrediente na hospitalidade dos vaqueiros e demais sertanejos do Norte de Minas Gerais. Há pistas que ajudam a conhecer o papel da cidade de Januária, centro de uma tradição cachaceira peculiar que se irradia em vasta região. Uma de suas características, o uso da umburana no envelhecimento da aguardente, influencia hoje a cachaça de todo o Brasil e mesmo outras bebidas, como a cerveja, mundo afora. Guimarães Rosa documenta essa tradição desde os anos 1930, época em que escreveu seus primeiros relatos.

Mas a cachaça é também eixo que faz rodar um espectro simbólico de raio mais amplo. Por um lado, atualiza a tradição alquímica da aguardente – aqua ardens, que se modaliza em aqua vitae e quintessentia –  e da destilação do processo fundamental na produção da Obra – uma das interpretações possíveis para a “hora e vez” de Augusto Matraga, para citar apenas um exemplo. Dialoga, portanto, com a tradição helenística e neoplatônica, tão presente na obra do autor mineiro. Mas Guimarães Rosa também situa a cachaça no centro de um embate que é fundador do chamado processo civilizatório brasileiro. Em “Meu tio, o Iauaretê”, publicada no livro póstumo Estas Estórias, a cachaça é a “abrideira” do labirinto da linguagem, território em que as personagens são suscetíveis a revelações e metamorfoses. Recoloca-se a discussão sobre o papel da cachaça como elemento introduzido na cena da dominação pelo apropriador da terra. Minas é aqui o lugar de uma fronteira sempre recolocada, no sertão e na alma (ou na linguagem) do caboclo, entre o onceiro e a onça, ou entre a aliança precária que faz do caboclo um onceiro e o sistemático sacrifício que o reincorpora como parente da onça.

Imaginários sociotécnicos, vocação mineral e desastre em Minas Gerais

Lorena Cândido Fleury

Imaginários sociotécnicos, vocação mineral e desastre em Minas Gerais

O extrativismo para exportação, em especial a mineração, possui em Minas Gerais estatuto ontológico: do seu nome às relações ecológicas, políticas, econômicas e institucionais, o estado é definido por uma “vocação mineral” que ao mesmo tempo o inscreve no multiescalar mundo das corporações transnacionais e determina os mundos possíveis de serem vividos por seus habitantes locais. Contudo, esse aparente determinismo vocacional encobre disputas e conflitos socioambientais que, se sempre estiveram presentes, apresentam uma nova magnitude em decorrência dos desastres-crimes envolvendo barragens de mineração em Mariana e Brumadinho.

É nesse contexto que o presente projeto de pesquisa se propõe a investigar os imaginários sociotécnicos presentes no cotidiano de reparação ambiental nos municípios atingidos pelo rompimento de barragens de rejeitos de mineração em 2015 e em 2019 em Minas Gerais. Para além das dimensões trágicas dos eventos, que juntos somam cerca de 300 mortes e um dano ambiental que se estende por toda a bacia hidrográfica do Rio Doce, a experiência de rompimento das barragens impõe a rearticulação de setores e grupos sociais heterogêneos. Empresários, técnicos, cientistas, atingidos, militantes de movimentos sociais e ambientalistas, diante do imperativo de recuperação ambiental, disputam narrativas e materialidades a respeito do passado, bem como a produção de possíveis futuros.

Os imaginários sociotécnicos presentes nos projetos de recuperação e reparação ambiental, entendidos não somente como a forma pela qual os sujeitos imaginam o ordenamento da vida social, mas também como articulam dentro desse ordenamento a ciência e tecnologia em projetos e práticas no mundo, nos permitem acessar os mundos desejáveis disputados pelos diferentes grupos sociais. Rastrear tais imaginários nos processos de reparação presentes permitirá, propõe-se, analisar a coprodução de sociedade (arranjos institucionais, conhecimentos, valores) e natureza (paisagens, ambientes, recursos) em curso, e, a partir dela, as inscrições e traduções de mundos passíveis de existir e de coexistir nas Minas Gerais.

“O Aleijadinho” e sua recepção histórica e crítica

Luiz Armando Bagolin

“O Aleijadinho” e sua recepção histórica e crítica

“O Aleijadinho”, assim, entre aspas, expressa não mais do que um conjunto de representações que não necessariamente tem como origem um indivíduo chamado Antônio Francisco Lisboa, supostamente um artífice, mulato, forro, que viveu em Vila Rica e seus arredores, entre o final do século XVIII e o início do XIX. Como representação, entre outras representações, “o Aleijadinho” é um conceito que seguiu com vida própria à medida que foi se institucionalizando no Brasil, desde meados do século XIX, a par de interesses políticos nacionalistas, em primeiro lugar, mercadológicos, depois, não correspondendo nunca a uma unidade psicológica indecomponível. A invenção do Aleijadinho na persona do entalhador Antônio Francisco Lisboa, que provavelmente circulou pelas Minas Gerais do XVIII, coube a Rodrigo José Ferreira Bretas (1814-1866), tendo investido a composição de sua biografia do escultor em gênero epidítico, que encomia obras e louva vidas, emulando ao mesmo tempo a célebre novela de Victor Hugo, O corcunda de Notre-Dame, que era uma predileção nas leituras do imperador Dom Pedro 2º.

Bretas, professor de retórica, foi hábil em montar uma biografia que move o leitor em direção à dor, sublime, da vida, deformada e finita, em confronto com a arte bela e infinda, operando por disjunções, quanto ao ethos, a composição do personagem Aleijadinho. Reúne, com os procedimentos retóricos do gênero referido, a menção ao Livro de Registros de Fatos Notáveis da Cidade de Mariana do Vereador José Joaquim da Silva, que teria sido publicado em 1790, porém desaparecido (ou talvez nunca escrito), como recurso a conferir-lhe a verossimilhança como verdade de prova.

O discurso de Bretas, por sua vez, comove por oxímoro, como o belo-feio, ou o monstro que faz maravilhas. Retém-se também nessa oposição um dos critérios para as antigas coleções de mirabilia, as maravilhas, os maravilhosos, por exemplo, onde se compõem, de acordo com a ordo naturalis, os caprichos e grotescos, os fantásticos da natureza. Nasce desse modo outra representação, cujos desdobramentos tornaram-se evidentes em leituras posteriores, durante o século XX, como a do mito poético inventado por Lezama Lima, ou seja, o da arte da cultura criolla como arte de resistência ou “arte da contraconquista”, o que será, sobretudo, explorado pelos modernistas na defesa do nativismo e da identidade própria para a arte brasileira.

Cecília Meireles e a transfiguração da Inconfidência

Sérgio Alcides

Cecília Meireles e a transfiguração da Inconfidência

A atualidade do Romanceiro da Inconfidência chega a ser perturbadora: “Onde a fonte do ouro corre, / apodrece a flor da Lei”.

Cecília Meireles não foi a Minas Gerais em busca de origens da nacionalidade. Para ela, a visão do passado colonial mineiro inspirou antes uma reflexão sobre a frustração dos melhores ideais humanos e sua inevitável recorrência, no fluir da temporalidade que os engole. “Na mesma cova do tempo / cai o castigo e o perdão”, escreve ela. É verdade, mas “homens novos, multiplicados / de hereditárias, mudas revoltas, / bradam a todas as potências”. Isso assegura a permanência da poesia.

Os episódios da Inconfidência Mineira são – nesse livro de 1953 – o motivo da poesia: seu tema, não seu assunto. Este apenas parte das figuras desenhadas com base em pesquisa documental, os “Autos da devassa” e outros documentos históricos, mais o tesouro das tradições orais. O trabalho poético transfigura essas fontes, com as quais se impregna da experiência passada. E delas se solta, como a mão do herói que acena: “vaga forma, do tempo desprendida”.

O Romanceiro é por isso irredutível à história do Brasil. Prende-se à nacionalidade brasileira tanto quanto a Ilíada à grega ou a Divina comédia à italiana – ou seja: não de todo. Para esse livro, a controvérsia historiográfica sobre a Inconfidência importa pouco. O público não procura seus poemas a fim de verificar se correspondem ou não a supostos fatos históricos. Vai ali para contemplar como “amor, inveja, / ódio, inocência, / no imenso tempo / se estão lavando”.

A pesquisa e a composição da obra levaram dez anos. No meio tempo, Cecília manteve sua presença constante na imprensa, como cronista, e traduziu um punhado de autores cruciais para ela, como García Lorca, Virginia Woolf, Rilke e Tagore. As estadas em Ouro Preto e Belo Horizonte foram entremeadas por viagens à Europa, às vezes em missões de representação oficial. Em 1952, Cecília voltou ao Brasil trazendo seus Doze poemas da Holanda. E no ano seguinte, quando o Romanceiro chegava às livrarias, estava em congresso internacional na Índia. Até o fim da década, ainda visitaria Israel e os Estados Unidos, e retornaria à Europa um par de vezes.

O mergulho no passado convergia com tantas viagens a pontos fulcrais da contemporaneidade, a Leste e a Oeste, seja no velho continente, seja no mundo pós-colonial. A tarefa deste projeto é situar o Romanceiro nesse itinerário.

Imagens estilhaçadas: a cena do comum e do outro

José Da Costa

Imagens estilhaçadas: a cena do comum e do outro

No centro de minha discussão, estarão dois espetáculos teatrais do Grupo Galpão sediado em Belo Horizonte – Nós (2016) e Outros (2018), ambos dirigidos por Márcio Abreu. A partir dessas criações, tentarei refletir sobre certas imagens dos âmbitos local e planetário, bem como buscarei circunscrever determinadas configurações cênicas (rítmicas, temporais, espaciais, sonoras etc.) de percepções, mais ou menos fragmentárias, das ideias de sujeito (eu, nós, ele, outros), de comunidade (familiar, nacional, humana) e do espaço público e suas fraturas (pertinência e não pertinência) no contexto contemporâneo.

Poderão ser feitas associações dos espetáculos do Galpão dirigidos por Márcio Abreu com outros trabalhos da trupe de Belo Horizonte e com produções de Márcio Abreu não realizadas pelo Galpão, bem como com espetáculos de outras companhias e artistas mineiros. Destacadamente, devo observar trabalhos de duas criadoras mineiras. Refiro-me à atriz, diretora e dramaturga Grace Passô (que realizou as versões finais de dramaturgias do Grupo Espanca, como Por Elise e Congresso Internacional do Medo, e criou obras como Vaga Carne e Preto, tendo sido essa última escrita em parceria com Márcio Abreu e Nadja Naira) e à bailarina e coreógrafa Denise Stutz (que integrou ao longo de muitos anos os espetáculos do Grupo Corpo em Belo Horizonte e da Lia Rodrigues Companhia de Dança no Rio de Janeiro). Denise Stutz – que, hoje, vive e trabalha no Rio de Janeiro – tem criado e encenado uma série de espetáculos solos que interessam particularmente à reflexão aqui proposta sobre a comunidade e o sujeito (individual e coletivo), entendidos tais termos não de forma substancialista, mas como problemas e como inquietações da imaginação artística.

É possível que certo debate do campo de filosofia ou dos estudos literários sobre a noção de comunidade seja mobilizado, por meio de autores como Jean-Luc Nancy (A comunidade inoperada), Giorgio Agamben (A comunidade que vem), Maurice Blanchot (La comumunauté inavouable), Tzvetan Todorov (A vida em comum: ensaio de uma antropologia geral) e Roberto Esposito (Communauté, immunité, biopolitique: repenser les termes de la politique),  mas também Roland Barthes (Como viver junto), além de Peter Pál Pelbart e Suely Rolnik, que poderão trazer contribuições para o delineamento de questões ligadas à subjetividade ou aos modos de subjetivação coletiva e individual.

Gustavo Capanema e os dilemas entre unidade e diversidade

Simone Meucci

Gustavo Capanema e os dilemas entre unidade e diversidade

Esta proposta visa analisar discursos do mineiro Gustavo Capanema (Pitangui, 1900-1985) relativos ao tema da educação no Brasil entre os anos de 1945 e 1959, quando era deputado federal de Minas Gerais pelo Partido Social Democrático. Nesse período, o ex-ministro da educação de Getúlio Vargas, enquanto membro da Comissão de Educação, foi atuante na Assembleia Nacional Constituinte e na definição do curso de tramitação do anteprojeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

A quarta constituição republicana, a de 1946, foi delineada após a queda de Vargas e exigia definição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação como matéria a ser apreciada pelo Congresso Nacional. A Lei de Diretrizes e Bases foi, pois, aprovada apenas em 1961 e impôs a Capanema a derrota de seus argumentos em favor da centralização política do sistema educacional.

A lentidão pode ser considerada reveladora da dificuldade de solucionar dilemas acerca da natureza do pacto federativo ou do que Clemente Mariani (também deputado pela Bahia, representante do partido União Democrática Nacional e relator do projeto) chamou de impasses “entre unidade e variedade”.

Considera-se que a ação parlamentar de Capanema tem valor heurístico para se entender o modo como a experiência democrática pós-1945 exigiu nova elaboração da especificidade do Brasil, que, nos anos de 1930, justificava, ao modo da interpretação de Oliveira Viana, o autoritarismo e o protagonismo do Estado. Capanema entendia ser necessária a manutenção da “ação pedagógica” da União para se opor às oligarquias articulando um nexo de sentido entre atraso e descentralização.

Pretendemos verificar as combinações entre os binômios descentralização/centralização, atraso/modernidade, democracia/autoritarismo considerando a hipótese de que vigorou, durante todo o período de redemocratização, uma perspectiva que opõe descentralização e desenvolvimento com base no argumento de que o localismo não contribui para a autonomia, mas para o insolidarismo. Nesse sentido, um sistema nacional de educação deveria ter a baliza da União para defesa dos parâmetros de uma modernidade de significação universal.

Sertões mineiros e ciência-mundo: a doença de Chagas entre o local e o global

Simone Kropf

Sertões mineiros e ciência-mundo: a doença de Chagas entre o local e o global

Em 1909, o médico e pesquisador Carlos Chagas descreveu, num vilarejo à beira do rio das Velhas, uma nova enfermidade dos trópicos. O parasita que a causava (batizado por ele de Trypanosoma cruzi) era transmitido pelo inseto conhecido localmente como “barbeiro” ou “chupão”, por sugar o sangue dos moradores das miseráveis choupanas de pau-a-pique da região. A descoberta e os estudos sobre a tripanossomíase americana ou doença de Chagas se tornaram a vitrine do recém-criado Instituto de Manguinhos, que Oswaldo Cruz pretendia equiparar aos institutos de medicina tropical europeus, legitimando assim a identidade social dos cientistas que pretendiam conduzir a modernização republicana.

Era uma doença “mineira” em vários sentidos: pelo local de sua descoberta, pela naturalidade de seu descobridor, pelos enfermos que lhe davam carne e osso, pelas paisagens dos “sertões doentes” materializados nas cafuas. A nova tripanossomíase, que se pretendia “americana”, estendia-se, contudo, para muito além das gerais. No deslizamento discursivo pelo qual as “endemias dos sertões” se faziam a versão local das “doenças tropicais”, a enfermidade descoberta e estudada em Minas se tornou a “doença do Brasil” em sentidos diversos. Evocava a nação marcada pelo atraso e pela pobreza de seus sertões, mas também a nação que se inseria nas rotas dos saberes, pessoas, instrumentos e espécimes que marcavam a agenda nascente da medicina tropical europeia.

Nosso objetivo é refletir sobre como a doença de Chagas ganhou contornos como objeto médico e social mediante os circuitos entre distintas (e assimétricas) latitudes geográficas, culturais e sociais, a conectar Minas, Rio de Janeiro e Europa. No trânsito entre o local e o global, a doença dos sertões mineiros trouxe “glórias” para a ciência brasileira, mas também motivou resistências. Seus críticos, incomodados com sua caracterização como emblema de atraso e “degeneração”, afirmavam tratar-se não de um problema nacional ou americano, mas do “mal de Lassance”, restrito aos rincões mineiros, e que só faria estigmatizar o país no exterior. Trata-se, portanto, de pensar os sentidos polifônicos e contraditórios pelos quais Minas Gerais, espaço natural e social da “doença do Brasil”, projetou a nação em uma ciência-mundo que se desenhava entre muitas idas e vindas entre a Europa e os trópicos americanos.

Jequitibá, Brejinho, Beco do Repolho, Lagoa Trindade, Matuto, Cordisburgo, Calabouço, Povoado do Souza e Serra do Cipó: O mundo sem capital e a oralidade que produz sem capitalizar

Sérgio Bairon

Jequitibá, Brejinho, Beco do Repolho, Lagoa Trindade, Matuto, Cordisburgo, Calabouço, Povoado do Souza e Serra do Cipó: O mundo sem capital e a oralidade que produz sem capitalizar

O princípio de transferência da capital de Minas Gerais de Ouro Preto para outra localidade circulava pelo Brasil Colônia desde a época da Conjuração Mineira de 1789. Somente em 1867, no entanto, o deputado Padre Agostinho de Souza Paraíso apresentou na Assembleia Legislativa Provincial (MG) um projeto (que foi aprovado) que transferia a capital de Ouro Preto para a cidade de Jequitibá. Seu argumento central estava baseado na importância econômica e de mobilidade do Rio das Velhas que banhava toda região, sendo o principal afluente do Rio São Francisco. O projeto, porém, não se efetivou em função da reação contrária ouro-pretana e acabou contando com o veto do Presidente da Província. O resultado foi que grande parte da região em torno do Rio das Velhas, por um lado, acabou ficando isolada do desenvolvimento econômico e urbano contemporâneos. Por outro lado, quiçá justamente por isso, preservou e expandiu muitas formas de vida do saber oral. Quase 150 anos após a apresentação do projeto do Deputado Padre Paraíso, encontramos na região, vivas e latentes, as seguintes manifestações culturais: Grupo de Rezadeiras, Incelência de Chuva, Boi da Manta, Catopé, Folia do Divino, Folia de São Sebastião, Folia de São Geraldo, Batuque de Viola, Dança de Roda, Encomendação das Almas, Fim de Capina, Candombe, Moçambique, Caboclo, Marujos, Vilão e Guarda de Congo.

Esse universo de visões de mundo, ainda hoje fortemente presente na região, expressa um grande e dinâmico hibridismo cultural, fruto do encontro entre as culturas portuguesa e africana, que teve como resultado a formação de localidades culturais (de tradição oral) profundamente complexas em terras brasileiras.

Junto de comunidades dessa região, entre 2005 e 2011, tive a oportunidade de acompanhar e pesquisar inúmeros rituais (espirituais ou não), com ênfase no ritual Coroação de Reis Congo, cuja origem data do final do século XV, simbolizando o momento inaugural do encontro entre os portugueses e os africanos do Reino do Congo. Estar imerso nesse contexto geográfico significa compreender que esse mundo se revela, concomitantemente, como a origem reticular do encontro luso-afro-brasileiro e como fundamento que (re)inaugura o mundo, dinâmica e frequentemente, em transveredas da oralidade em que se produz cultura sem capitalizar. Esse mundo que se formou de maneira totalmente paralela aos sistemas econômicos sobreviveu, por um lado, por não ter se tornado a região da capital mineira e, por outro, porque em nada representa (ou representou) um valor de mercadoria.

Perguntar pela mundanidade desse mundo implica refletir o quanto ele pode ser compreendido a partir de uma rede de ontologias primordiais que, em grande parte, são imperceptíveis às teorizações das temáticas identitárias. Sobretudo, porque essas formas de vida híbridas carregam suas tradições incrustadas em raízes rizomáticas e familiares, cuja profundidade espraia-se geograficamente por toda região do Vale do Rio das Velhas, sua temporalidade podendo retroagir até o século XVI.

Esse mundo é trazido à tona, por exemplo, toda vez que um grupo de Guarda de Congo clama com seus tambores, sob o comando de seu Capitão, em homenagem ao seu Rei e a sua Rainha negros. Desvela-se assim aquele encontro da expedição portuguesa de 1483, quando Diogo Cão, a mando de João II de Portugal, chegou à foz do rio Zaire, inaugurando o universo simbólico do contato primordial entre os portugueses e os africanos do Reino do Congo.

Falar desse mundo, portanto, é falar de uma ontologia sempre grávida de um princípio cronotópico, no qual geografia e temporalidade se entrecruzam, tecendo uma rede infindável de associações culturais entre Portugal, Reino do Congo e Brasil. O mundo está nesse devir de um cronotopos definido primordialmente pelo saber oral. Uma historicidade umbilical terra-mundo, fruto da afeição presente no co-pertencimento entre Terra e Mundo. Só assim o mundo se mundifica, por exemplo, na Coroação de Reis Negros, que carrega séculos de oralidade nas inúmeras localidades mineiras e, ao mesmo tempo, numa obra como “O Recado do Morro” de Guimarães Rosa.

Defenderei o princípio de que essa compreensão clama por um aprofundamento por meio da vivência com essas culturas, tornando a experiência in loco a grande fonte de sentido. Fizemos mais de 10 filmes (contando com a interlocução de princípios da Antropologia Visual); várias comunidades do Moçambique, do Candombe e da Guarda de Congo foram grandes parceiros na produção e finalização desses registros audiovisuais. No entanto, não há (e não houve) conclusão a respeito de toda essa experiência. O que existiu (e existe) é a necessidade de demonstrar que é justamente a presença de uma experiência inacabada e inacabável com essa terra-mundo que possibilita a compreensão de seu fundamento cronotópico.

Paz e Inhotim

Sabrina Parracho Sant’Anna

Paz e Inhotim

Na narrativa oficial, o Instituto Inhotim começou a ser concebido por Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. Construída dentro fazenda do colecionador como Jardim Botânico e instituição sem fins lucrativos, a fundação foi aberta para o grande público em 2006 e apresenta hoje uma das mais importantes coleções privadas de arte contemporânea em âmbito internacional.

Como em outras instituições privadas, a criação do museu constrói para seu mecenas uma imagem pública que confunde patrono e coleção, fazendo aderir projetos museais a narrativas de histórias de vida. Na dialética Minas/mundo, Inhotim parece se constituir como metáfora privilegiada de personalidades autorreflexivas cujo destino é o cosmopolitismo. Construindo fortuna pessoal a partir da mineração, Bernardo Paz narra sua infância em Belo Horizonte e o desejo de acumulação, a partir da memória do menino que ouvia o canto das galinhas e corria para acumular os ovos. Na dura relação com a família, diz saltar da introspecção para o reconhecimento da sociedade. Do prosaísmo de Brumadinho, vislumbra o futuro de Inhotim como “uma Disney World pós-contemporânea cultural”. Se, dentre os espaços que suscitam sonhos, já Benjamin aproximava museus, exposições universais, estâncias hidrominerais e – por que não? – parques temáticos, que metáfora melhor para pensar Minas e o mundo? Museu que se quer o salto da experiência individual e ensimesmada da contemplação estética para a democratização de espaços expositivos que povoam de imagens as redes sociais. Minas. Mundo.

Do ponto de vista do projeto, importa, portanto, entender como é possível constituir uma fina relação entre o projeto de instituição internacional e uma fazenda encravada numa cidade de 38 mil habitantes, espaço simbolicamente marcado pela experiência local. Mais do que isso, no entanto, importa também entender o tensionamento entre experiências locais marcadas pela relação com a mineração, pela produção de commodities para o mercado internacional, pelo passado escravista presente na incorporação de mão de obra quilombola, e pela presença de uma arte internacional que passa a se produzir como economia criativa capaz de mediar relações. Proponho aqui entender tanto a imagem construída pelo museu, como pelos discursos críticos que o informam e que são crescentemente incorporados pela instituição.

Mundo vasto mundo: migrações mineiras

Rossana Rocha Reis

Mundo vasto mundo: migrações mineiras

Na década de 1990, os cientistas sociais foram surpreendidos pela constatação de que pela primeira vez em sua história o Brasil tinha se tornado um país de emigração. No começo daquela década proliferavam as notícias de jornal especialmente sobre o grande fluxo de valadarenses para os Estados Unidos, em particular para a cidade de Boston. Naquele tempo, a professora Teresa Sales realizou um estudo pioneiro sobre esse fluxo, desvelando razões, processos e efeitos dessa mobilidade nas localidades de origem e destino dos migrantes.

Posteriormente, os fluxos do Brasil para o exterior foram se diversificando. Em alguns momentos, diminuíram, mas nunca mais deixaram de existir. Minas Gerais segue sendo um estado importante na composição do estoque de brasileiros no exterior, o que não chega a ser surpreendente para quem conhece o dito “se todos os mineiros voltassem para Minas, não caberia todo mundo em pé”.

Ganhar o mundo para ganhar a vida sempre foi uma opção para os mineiros alijados de possibilidades nos seus locais de origem. Nas últimas décadas, a falta de perspectivas no estado somada ao “encolhimento do mundo” provocado pelo processo de globalização levou os mineiros ainda mais longe, promovendo aquilo que Silvano Santiago chamou de “cosmopolitismo do pobre”: uma inserção subalterna na “aldeia global”, e que ainda assim, como já mostrava Teresa Sales, lhes dá um sentido de cidadania e pertencimento que a desigualdade social na origem sempre lhes negou.

O objetivo dessa pesquisa é retomar essa ideia desenvolvida por Teresa Sales daquele migrante que se sente mais “gente” como imigrante, muitas vezes clandestino, e investigar se ela continua sendo importante para entender a experiência do migrante hoje. Além disso, considerando que a migração é um processo muitas vezes pendular, que modifica não apenas pessoas, mas deixa suas marcas nos territórios que conecta, gostaríamos de entender se e como esse sentido de “cidadania global” se expressa nos locais de origem dos migrantes.

Vozes e tambores de Minas: figurações da cultura popular e do barroco em Drummond, Rosa e Milton

Roniere Menezes

Vozes e tambores de Minas: figurações da cultura popular e do barroco em Drummond, Rosa e Milton

O presente trabalho visa a investigar a presença de elementos da cultura popular, principalmente musical e negra, da arte barroca e da contemporaneidade, na obra de três importantes nomes da poesia, prosa e música mineira: Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Milton Nascimento. Buscaremos encontrar nas imagens de Minas Gerais presentes em suas produções elementos ao mesmo tempo locais e cosmopolitas. A criação dos autores apresenta características que revelam sobrevivências da cultura colonial afro-brasileira na Minas Gerais moderna e contemporânea. Muitos desses elementos remetem-nos a um aspecto mais popular e periférico do período barroco. Na poesia drummondiana e na prosa rosiana aparecem manifestações ligadas a cantos religiosos, profanos, a cantos de trabalho, dados que se evidenciam nas composições (muitas em parceria) e interpretações de Milton Nascimento. Reflexos do barroco mineiro surgem nas criações por meio dos jogos de contrários, da conjugação entre o excesso e a síntese, do trabalho de montagem. A pesquisa relaciona-se à perspectiva pós-colonial. Investigações de Aires da Mata Machado Filho sobre o negro em Minas, de José Miguel Wisnik sobre música, de Affonso Ávila sobre o barroco mineiro e de Didi-Huberman sobre os conceitos – desenvolvidos por Aby Warburg – de sobrevivência e montagem contribuirão com o estudo. A noção de estética do inacabado, pensada por Mário de Andrade, pode ser notada principalmente em Milton, a partir da reelaboração da produção popular tradicional visando a uma linguagem inovadora que se firmasse diferencialmente no “Concerto das Nações”. A ideia de arte de exportação, presente no Manifesto Pau Brasil, de Oswald de Andrade, aparece em algumas produções. Nos textos, a imagem de Minas Gerais constrói-se por meio de um pensamento que coloca o “interior” em diálogo com diversas referências “exteriores”, visando a um contato com o “fora”. Esse “fora” relaciona-se tanto a outros países, culturas, linguagens e à modernidade tecnológica, quanto à desconstrução dos lugares engessados do patriarcalismo, do regionalismo, do racismo, da religiosidade canônica. Drummond escreveu, sob o olhar do presente, a respeito do “espírito de Minas” popular, negro, barroco, conservador, festivo. Nas narrativas rosianas, há a presença de quilombos, de imaginários e figuras vindas do mundo da escravidão, de elementos populares, barrocos associados a uma escritura diferencial. Milton Nascimento mescla, em suas composições, o Barroco, o Arcadismo, a música latina, norte-americana, europeia, africana, indígena. Nos textos, percebemos, relacionados ao sentido de Minas Gerais, traços arcaicos, ancestrais, amalgamados por uma linguagem e uma perspectiva inovadora, em sintonia com importantes criações artístico-literárias mundiais, com arrojados projetos político-culturais da modernidade e da contemporaneidade.

Minas de Ferro: articulando local e global

Rodrigo Salles Pereira dos Santos

Minas de Ferro: articulando local e global

A importância econômica, política e social da indústria extrativa mineral se consolidou nas últimas duas décadas no Brasil, se traduzindo em ampliação de conflitos, impactos e desastres socioambientais. À medida que a exploração de minério de ferro constitui sua viga mestra, o estado de Minas Gerais deve ser compreendido como seu epicentro, permitindo observar a reorientação do investimento privado de corporações, transnacionais e nacionais; a transição na estratégia de desenvolvimento neoextrativista; assim como os regimes de governança de recursos naturais e seu efeitos sobre a sociedade civil. Essa transformação paradigmática vem sendo operada, fundamentalmente, através da integração de frações territoriais do estado em redes globais de produção (RGPs), isto é, nexos corporativos estratégicos funcionalmente integrados, ainda que fragmentados geograficamente, de operações de exploração, extrativas, produtivas, logísticas, e de consumo e descarte. A despeito da centralidade da firma, tais redes compreendem indissociavelmente agentes e estratégias não econômicos (políticos e sociais) cruciais para suas pretensões de acumulação. As RGPs do minério de ferro integram, assim, agentes e operações em múltiplas escalas, vinculando territórios e suas dotações de bens naturais e trabalho em termos profundamente impactantes para seu bem-estar.

Nesse sentido, apoiando-se em resultados de pesquisa prévia que buscou mapear a rede global extrativa de ferro no estado de Minas Gerais e os conflitos socioambientais a ela associados, pretende-se tematizar as formas de “relação descentrada de convivência” entre particular e universal que emergiram da intensificação da integração socioeconômica de municípios extrativos de ferro no estado de Minas Gerais em RGPs extrativas. Mais especificamente, resultados de pesquisa derivados de três estudos de caso representativos devem ser mobilizados. Em primeiro lugar, o caso da depleção da extração no complexo da Vale S.A., em Itabira, que caracteriza um cenário consolidado e declinante. Em segundo lugar, os conflitos em torno da mina Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional S.A. (CSN), em Congonhas, que caracterizaram um cenário em expansão até 2011. Por fim, o projeto Minas-Rio da Anglo American S.A., em Conceição do Mato Dentro, que constituiu um cenário de implante em uma região do estado sem histórico de exploração de ferro.

Confissões de Minas: a poesia na praça de convites

Roberto Said

Confissões de Minas: a poesia na praça de convites

A autobiografia é uma das linhas constitutivas da trajetória drummondiana. O sujeito que assina o texto parece atravessá-lo, a ponto de fazer do poético um espaço de prospecção do ser. De uma extremidade a outra da obra, a escrita se realiza sob a vigência de uma genealogia, com a qual o poeta fabula sua própria história, individual e familiar. No entanto, esse gesto autobiográfico não se realiza de modo transparente, posto que o problema colocado pelo poeta não é o de buscar a forma mais legítima ou a mais verdadeira de expressão ou de representação de si. Ao contrário, ele se inscreve no campo das práticas e das formações discursivas da modernidade, pautado pela crítica da subjetividade e pelo questionamento das categorias relativas ao sujeito e à sua interioridade. O elemento autobiográfico, embora esteja disseminado de um canto a outro de sua poesia, não atua senão para colocar em xeque a presença de uma subjetividade ou de uma identidade previamente constituídas.

Moderno por excelência e desdobrado ao longo de quase todo o século 20, esse processo de subjetivação deflagrado pelo poeta itabirano revela uma dimensão eminentemente reflexiva e filosófica, com a qual se desenvolve e se abre ao mundo, de modo a expandir, para um universo de interesses coletivo e histórico, o campo individual da experiência. Talvez resida nesse movimento paradoxal a grande virada efetuada por Drummond: ele define as margens de um novo território para a tradição poética brasileira, à medida que subverte a tendência intimista e introspectiva, “o gosto pela confidência” – característica destacada por Antonio Candido ao tratar da formação de nossa literatura – dando-lhe, sob laboriosa busca estética, uma dimensão meta-subjetiva. Pode-se notar, na esteira dessa revolução do discurso poético, a presença de um outro sujeito textual – outro inclusive em relação ao próprio modernismo – imbuído de novas ordenadas e tarefas.

É com esse complexo arranjo poético que a escrituralização da subjetividade literária é deslocada por Drummond, alcançando o estatuto de pensamento filosófico sobre o sujeito, abordado em sua contingência histórica. Sua obra, ao explorar as ambivalências existentes entre uma história pessoal e particular e as disjunções mais amplas de sua inserção histórica e política, parece desviar a poesia brasileira e, sobretudo, a mineira, dos bastidores da confidência, conduzindo-a como atitude existencial até o palco público e cosmopolita de reflexões.

Com Drummond, a poesia confessional e autobiográfica já não mais decorre da maturação ou do reconhecimento de uma interioridade em sua experiência expansiva frente à realidade. Já não se trata de encontrar forma adequada de expressão para uma “alma” atormentada, em descompasso com o mundo, nem de lhe revelar as contradições intrínsecas, mas sim de pensar tais tormentos e contradições no palco da modernidade nacional, atualizando-os, recriando-os esteticamente.

Este projeto de pesquisa visa a estudar a subjetivação engendrada na poesia drummondiana, a fim de analisar: a) as linhas de força que definem essa revolução subjetiva do discurso poético, com suas tensões intrínsecas; b) o modo como essa tradição por ele criada se desdobra, na condição de interlocução necessária e privilegiada, nas poéticas de escritores mineiros, modernos e contemporâneos, entre os quais se destacam Henriqueta Lisboa, Afonso Ávila, Ricardo Aleixo e Ana Martins Marques; e c) o viés político presente nessa tradição poética, situada nas encruzilhadas entre história e literatura, casa e mundo, entre as Minas e o vasto mundo.

Arquivos literários em Minas Gerais

Reinaldo Marques

Arquivos literários em Minas Gerais

Como contribuição ao estudo das articulações entre o cosmopolitismo e a cultura brasileira a partir da diferença local das culturas mineiras, propõe-se aqui o levantamento e a exploração dos fundos documentais de arquivos literários e culturais existentes em Minas Gerais, com ramificações em outros espaços. Trata-se de arquivos constituídos por uma documentação heterogênea: textual, iconográfica, sonora e tridimensional, que fazem deles, em alguns casos, uma mescla de arquivo, biblioteca e museu. Nos rastros documentais contidos nesses arquivos, será possível apreender as relações de forças que se cruzam e se chocam no espaço cultural das Minas Gerais, configurando certa orientação cosmopolita. Inclinação marcada, contudo, pelo embate entre forças territorializantes e arbóreas, alimentadas por uma libido de pertencimento e isolamento, e forças desterritorializantes, nômades, rizomáticas, abertas ao devir outro, ao diverso, ao estrangeiro, de que podem dar testemunhos textos, objetos e símbolos preservados nos arquivos literários.

Cabe ter em conta, em termos de uma Minas colonial, a fornida biblioteca do cônego Luís Vieira da Silva, pavoneando o imaginário dos inconfidentes com tintas iluministas, ou a biblioteca do Colégio do Caraça, que formou gerações de intelectuais mineiros. Considerem-se ainda os museus-casa de Alphonsus de Guimaraens e Guimarães Rosa, o Arquivo da Academia Mineira de Letras, o arquivo de Murilo Mendes na UFJF e o Acervo de Escritores Mineiros na UFMG. E também esse grande arquivo de arte moderna e contemporânea que é Inhotim.

Constituídos tanto de coisas quanto de discursos, há neles estratos sedimentares configurando zonas de visibilidade e campos de legibilidade, compondo camadas diversas, atravessadas por relações de forças, de poder. Tais forças compõem o lado de fora do arquivo literário e se definem pelo poder de afetar e de serem afetadas. Dizem respeito a forças no homem – o imaginar, o inventar, o recordar, o querer – e também às forças da vida, do trabalho, da linguagem. Enquanto tal, pode-se indagar: o que esses arquivos literários nos dão a ver sobre os complexos agenciamentos entre o cosmopolita e o local, sobre certo cosmopolitismo mineiro e suas relações com a cultura brasileira? O que eles nos permitem enunciar a esse respeito, desestabilizando sentidos já oficializados?

Metodologicamente, pretende-se abordar a documentação desses arquivos a partir de uma perspectiva transdisciplinar e comparatista, valendo-se de visitas e entrevistas com seus responsáveis e pesquisadores desses acervos. Trata-se de abordagem a ser feita segundo um olhar anarquivista, desconfiado das solenidades das origens e capaz de desconstruir a montagem e ordem arquivísticas instituídas nesses arquivos. De modo a ler seus documentos segundo outras (des)ordens possíveis, a fim de produzir narrativas múltiplas e alternativas que nos permitam contar outras histórias sobre Minas, modernismo e cosmopolitismo no Brasil.

Cosmominas: estado(s) em expansão na poética de Drummond

Rafael Lovisi Prado

Cosmominas: estado(s) em expansão na poética de Drummond

A proposta é investigar na extensa produção poética de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) diálogos, apropriações, construções de imagens e outros procedimentos que sinalizem o trânsito e a contaminação entre elementos (territoriais, simbólicos, linguísticos etc.) próprios ao universo de Minas Gerais e aqueles advindos de países e continentes estrangeiros. Como fio teórico a ser traçado, a noção de estado(s) em expansão perpassará os poemas abordados em sua ambivalência, quer dizer, referindo-se não só ao alargamento das fronteiras da cultura mineira (seu cosmos), como também à dilatação dos estados sensíveis e das subjetividades em jogo nos escritos, ambos os sentidos/efeitos desencadeados pela experiência daquilo que o filósofo grego Kostas Axelos chamou de “poeticidade do mundo”. Sendo assim, buscar-se-á destacar uma dimensão na qual os versos do poeta de muitas faces irmanam poética e vida para além de institucionalizações redutoras, sejam estas promovidas por instâncias externas ou internas à literatura. A ultrapassagem em questão diz de invenções na linguagem que têm como destino um mundo que não se restringe nem a individualidades/idiossincrasias nem a generalidades (sociais, estéticas, culturais). Sem ser um dado prévio e acabado, o mundo conjugado à poeticidade, que no caso da presente pesquisa nomeio de cosmominas, consiste numa abertura que nos lança à errância planetária: rasurados os limites impostos pelo imaginário ou pela geopolítica, teríamos através dos inventos drummondianos a figuração de lugares não topológicos e instantes não cronológicos. Trata-se, em suma, de dar a ler na poesia em foco uma disponibilidade para com o mundo em versões reinventadas, disponibilidade esta que apesar de ter se manifestado de maneiras distintas nos traços de historicidade da obra, não se esgota, permanece intempestiva.

O prosseguir em Minas: encontro no desencontro

Pedro Meira Monteiro

O prosseguir em Minas: encontro no desencontro

Como se vê o mundo a partir de Minas Gerais? Como o elabora o estrangeiro e o local? Como o sente quem vê de baixo, e quem olha de cima? Como o longínquo se faz próximo, no desencontro dos lugares sociais? Quem fala de dentro, quem de fora?

De um lado, Elizabeth Bishop, cuja imaginação poética tardia é marcada pelas montanhas de Minas, às quais ela transfere o que vivera em Petrópolis, onde viu, como poucos de seu meio, a iniquidade da formação social brasileira. Os comentários racistas e reacionários complicam a imagem dessa mulher que se apaixonou pela prosa de Clarice Lispector, e cujo poema “Manuelzinho” pode ser lido como a contrafação poética da crônica “Mineirinho”: ambos personagens agonizantes, vistos por mulheres brancas e estrangeiras movidas pelo susto diante do abismo das classes sociais. Há também a relação com Helena Morley, a “leading girl of Diamantina” que Bishop traduziu, e cujo encontro mereceu uma descrição que transforma o Rio de Janeiro num espelho do Deep South.

De outro lado, Conceição Evaristo, para quem o aguilhão da condição social é também motor, mas em ordem inversa: de baixo para cima, de dentro para fora, de uma classe a outra. Em batalha surda contra o esquecimento da ancestralidade, ela povoa o universo com personagens mágicas, ancoradas na memória que se expande pelo domínio da letra, que mal oculta a violência histórica da escravidão, como no caso de Ponciá Vicêncio. Ou então, em “Inquisição”, sente-se interrogada pelo Outro que “nega o negrume/ do meu corpo-letra/ na semântica/ da minha escrita”. Mas o eu-lírico insiste: “Prossigo e persigo/ outras falas,/ aquelas ainda úmidas,/ vozes afogadas,/ da viagem negreira.” O prosseguir engloba, no Minas Mundo de Conceição, um poema em que Clarice é levada até Carolina, “a que na cópia das palavras,/ faz de si a própria inventiva”. Em outro poema, que serve de espelho àquele, Carolina percorre cada canto da obra clariciana, “com os olhos fundos,/ macabeando todas as dores do mundo…”

O encontro improvável de Bishop e Conceição (mediado pela presença oblíqua de Clarice) se dá no ponto tenso em que as contradições da sociedade se tornam mais agudas, seja na clave estetizante, ou sentida na própria pele. No caso de Conceição Evaristo, uma constelação se arma, sugerindo uma linhagem de escritoras que se estende, para fora e para cima, a partir de Minas Gerais.

Teatralidade e cosmopolitismo do Triunfo Eucarístico na Vila Rica do século XVIII

Paulo Maciel

Teatralidade e cosmopolitismo do Triunfo Eucarístico na Vila Rica do século XVIII

A reflexão proposta sobre a relação entre urbanidade, teatralidade e cosmopolitismo, na Vila Rica do século XVIII, parte do comentário de Gilda de Mello e Souza, em Teatro ao Sul, a respeito da escolha do meio artístico para o tratamento da questão da decadência da sociedade patriarcal no Norte e no Sul do Brasil. Conforme argumentou a ensaísta, no Norte, o romance teria sido a forma privilegiada de tratamento do tema, enquanto, no Sul, o teatro se mostrou o meio mais adequado a sua retratação. Distinção que se baseia na duração do fenômeno, mais lento no Norte e mais veloz no Sul, como também no fato de que o teatro, ao contrário do romance, exigia uma sociedade mais urbana capaz de garantir o desenvolvimento de uma arte mais coletiva que individual. Não foi por acaso, então, que as primeiras manifestações teatrais no Brasil surgiram ligadas aos núcleos de povoamento, as vilas e as cidades, fundados ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII.

Nos últimos tempos, a noção de teatralidade tem sido empregada também para dar conta de eventos ou ações que demarcam as formas urbanas de sociabilidade nas cidades. Nesse sentido, através do estudo das festas barrocas mineiras, busco compreender que forma de teatralidade com a urbanidade e ou o espaço urbano emergente na Vila Rica do século XVIII. Urbanidade ou espaço urbano que, por sua vez, surge configurado publicamente por uma determinada teatralidade articulada pelas festas, uma vez que ambos os fenômenos parecem interligados naquele contexto.

A pesquisa pretende se debruçar sobre o chamado Triunfo Eucarístico (1733) a fim de descortinar os fios que, no passado, uniam teatralidade, urbanidade e cosmopolitismo mineiro a um determinado sistema das artes dominante no século XVIII. Sistema que remonta à noção de circularidade cultural, desenvolvida por Affonso Ávila em seus diversos estudos sobre o barroco, como uma espécie de complexo cultural e ou civilizacional articulado na Minas Gerais colonial.

Do ponto de vista crítico, o significado político-social das festas barrocas costuma oscilar entre a obediência ao universo da contrarreforma e do absolutismo europeu e a carnavalização dos valores e símbolos dessa ordem estabelecida, arte da contraconquista; ora integrariam os mecanismos de controle e domínio da metrópole sob a colônia, ora seriam meios possíveis de insurgência dos colonos, espaço-tempo de manobra, de sincretismo e ou de congraçamento sócio racial. Essa dupla perspectiva ideológica sobre as festas barrocas não marcaria, então, a própria lógica cultural do cosmopolitismo mineiro enquanto complexo civilizacional? Dessa forma, buscamos dar continuidade à reflexão em torno dos significados assumidos pelo barroco mineiro, especialmente em torno da teatralidade das festas, mas atento, especificamente, à sua contribuição para a constituição de uma lógica cultural nascida no interior desse emergente contexto colonial e urbano.

A mineiridade no modernismo: Aires da Mata e o registro dos vissungos

Oswaldo Giovannini Jr.

A mineiridade no modernismo: Aires da Mata e o registro dos vissungos

Aires da Mata Machado Filho (1909-1985) foi filólogo, escritor e folclorista mineiro. Registrou um dialeto falado por descendentes de escravos em São João da Chapada, Diamantina, MG, juntamente com 65 cantos vissungos (letra e partitura) usados pelos negros no garimpo de diamantes. Tais cantos eram compostos por uma mistura de palavras em português e outras de origem africana, formando o que ele nomeou como “dialeto crioulo”. Eram cantos de trabalho, fúnebres, festivos e, como seu significado não era compreendido pelos homens brancos daquela sociedade, também funcionavam como uma “língua com segredo”.

Seu livro O negro no garimpo em Minas Gerais (sua primeira publicação ocorreu na Revista do Arquivo Municipal em 1939) marcou seu lugar no pensamento social brasileiro, inserindo o autor no meio dos modernistas mineiros, no Movimento Folclórico Brasileiro e no meio intelectual nacional. O livro, publicado em 1943, obteve intensa recepção, nacional e internacional, tanto nas ciências humanas quanto no meio musical e artístico, fazendo com que as categorias culturais presentes no pensamento do seu autor alcançassem “ressonância” ao longo das décadas, ecoando até os dias atuais e permitindo a essa expressão cultural do garimpo mineiro participar da história social e cultural brasileira.

O movimento modernista em Minas formou um importante ambiente intelectual no qual Aires se inseria e que foi o primeiro meio consumidor em que sua obra ganharia ressonância. A abertura ao que se passava no mundo poderia caracterizar esse “espírito moderno” que tomava conta daqueles jovens mineiros ao qual se aliava também um “sentimento de Minas”, ou seja, procuravam integrar essa nova visão do mundo com uma tradição mineira. Epara Aires da Mata era fundamental a inclusão nessa tradição do “elemento negro”, do “dialeto crioulo”, dos cantos vissungos.

Circulação de ideias e alianças transnacionais no mundo negro insurgente (1960-1986)

Mário Augusto Medeiros da Silva

Circulação de ideias e alianças transnacionais no mundo negro insurgente (1960-1986)

Intento, principalmente por meio da trajetória de Américo Orlando da Costa (1932-1997) e Terezinha Maria Orlando da Costa (1926-2009), casal de ativistas negros ligados à Associação Cultural do Negro de um lado; e também por meio de Osvaldo Orlando da Costa (1938-1974), guerrilheiro que ficou conhecido como Osvaldão, comandante assassinado da Guerrilha do Araguaia, apresentar e discutir um circuito de circulação de ideias e projetos políticos, coletivos e individuais, presentes no ativismo político e cultural negro, permeado pelas questões anticoloniais, antirracistas, comunistas e pelo terceiro mundismo.

Américo e Osvaldo eram irmãos, oriundos de uma extensa família negra, ambos nascidos na cidade de Passa Quatro (MG), tendo iniciado suas vidas de militantes ligados à esquerda e ao Partido Comunista naquela cidade. Os caminhos trilhados levaram Américo para São Paulo e Osvaldo para o Rio de Janeiro, ambos estudantes e militantes, ainda no final dos anos 1950 (circa 1957 e 1958, respectivamente). E por meio de conexões internacionais do PC, os dois foram direcionados para países da União Soviética ainda na década de 1960. Américo foi para a Rússia, estudar na Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba (Moscou) e Osvaldo para Universidade Praga, na Tchecoslováquia. Os irmãos se formariam em Engenharia de Minas. O irmão mais velho permaneceu em Moscou de 1960 até 1970. O mais novo retornou ao Brasil em 1966 e tornou-se militante do PcdoB, posteriormente rumando para o Araguaia, onde seria morto. Terezinha Orlando da Costa era paulistana, com grau de instrução de nível secundário, e sua história é mais difusa, mormente atrelada ao marido. Seguiu com ele para Moscou e de lá ambos, depois de um breve período no Brasil (1970-1974), foram para Lisboa, Luanda e finalmente Maputo, permanecendo em Moçambique entre 1975 e 1986, trabalhando na reconstrução do país pós Guerra Colonial.

O cosmopolitismo de nenhum e a cosmopoética do múltiplo. João Guimarães Rosa e o pensamento transamericano

Marília Librandi

O cosmopolitismo de nenhum e a cosmopoética do múltiplo. João Guimarães Rosa e o pensamento transamericano

O projeto Minas Mundo, que propõe pensar o cosmopolitismo mineiro e a cultura brasileira em chave comparativa, vai me permitir retomar dois estudos sobre Guimarães Rosa, em preparação. No primeiro, um verso de Wallace Stevens, “all/one ear”, oferece ocasião para pensar a unidade e a comunidade do Um (“all+one”) e do individualismo (“alone”), na cultura norte-americana anglófona, em contraste com o “nenhum, nenhuma”, o “nonada”, o “coisinha nenhuma”, que aparecem contínuas vezes na obra de Rosa. A função paterna (presente no poema de Stevens, que remete ao rio no qual seu pai ia pescar), explícita na nação dos “Founding Fathers”, será contrastada com a função paterna problematizada, afastada, no meio do rio, na orfandade, e no enigma da “terceira margem do rio”. Como pensar o local-universal, ou qual noção de comunidade se depreende dessas expressões em contraste: “todos um” (que não é o mesmo que “todo mundo”) e “nem um/nonada”? Na sequência, a intenção é avançar o paralelo em relação ao México, através da noção de “nenhumamos”, que aparece em El labirinto de la soledad, de Octavio Paz, em relação ao campo fantasmático das classes subalternas. O livro de Silviano Santiago, As raízes e o labirinto da América Latina, que contrasta as imagens de Octavio Paz e Sérgio Buarque de Holanda, será fundamental para completar o estudo com uma abordagem de Diadorim, personagem que é também ela/ele/ “nenhum, nenhuma”/ e que, em leituras recentes aparece como o primeiro personagem “trans” na literatura brasileira. Por fim, o “all/one ear” de Stevens é contraposto ao símbolo do infinito, a lemniscata, que encerra/abre Grande sertão: veredas, a partir de anotação feita pelo próprio escritor, e que demarca: “∞ = par de orelhas”. No segundo estudo, a intenção é avançar uma análise da estrutura enunciativa de A queda do céu, no diálogo entre Davi Kopenawa e o antropólogo Bruce Albert, e a estrutura de diálogo-monólogo entre Riobaldo e o doutor da cidade, descrevendo a estrutura da escuta na escrita de ambas as obras. No caso, a cosmopolítica ameríndia, e sua diplomacia inter-espécies, nos ajudará a pensar o detalhe minucioso das frases de Rosa, que nos apresenta um mundo perspectivista no qual “tudo era falante”. Como entender (ouvir) a presença de um pensamento ameríndio no Mundo Minas de Guimarães Rosa?

Viagem e etnografia em Mário de Andrade

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti

Viagem e etnografia em Mário de Andrade

Desde Argonautas do Pacífico Ocidental, de Bronislaw Malinowski (1922), a antropologia redefiniu o entendimento da etnografia, elegendo-o como novo ideal de produção do conhecimento ao longo do século XX. Combinaram-se então a pesquisa de campo de imersão com a construção de um estilo autoral individualizado que associa a apresentação dos dados de pesquisa ao apelo à imaginação do leitor. A autoconsciência mais plena das implicações dessa novidade emergiu, entretanto, apenas nos anos 1970, quando Clifford Geertz trouxe com clareza a escrita etnográfica e seus aspectos textuais e narrativos como partes decisivas da expressão e produção do conhecimento antropológico. Um significativo conjunto de autores, entre eles James Clifford com a discussão da autoridade etnográfica, desdobraria nos anos 1980 o assunto. Com isso, sem abrir mão da objetividade – a ideia de um mundo real a ser conhecido –, aceitou-se a subjetividade e a intersubjetividade como mediadores essenciais do processo da pesquisa.

O escopo semântico da noção de etnografia – que integra escopo teórico, pesquisa de campo, análise de dados a seu resultado escrito – tornou-se multifacetado, pois remete ao mesmo tempo à autenticidade da experiência vivida, às exigências de apresentação fidedigna de dados, à imaginação do leitor e à construção do estilo autoral. Isso tornou a prática antropológica a um só tempo um ofício especializado (supõe a cientificidade de métodos e teorias) e uma arte narrativa sempre associada de algum modo à experiência da viagem como dispositivo de descentramento do sujeito e apreensão de alteridades. Esses significativos deslocamentos metodológicos e epistemológicos trazidos por essa acepção ampla da etnografia nos aproximam com novos olhos do passado e permitem, quando o arsenal crítico pós-moderno é usado construtivamente, renovar o interesse por autores clássicos em que a liberdade narrativa se associa ao desejo de produção de conhecimento.

Trago a conversa para o solo brasileiro, situando-a entre os anos 1920-1940, quando as próprias ciências sociais universitárias se encontravam em processo de institucionalização. Nesse contexto, levando em conta o grande bricoleur e artista que foi Mário de Andrade (1893-1945), a proposta enfoca em sua obra textos que iluminam formas diversas da experiência e do entendimento da etnografia sempre associadas a diferentes modalidades e projetos de viagem.

Penso especialmente em dois textos exemplares do interesse de Mário de Andrade em registrar e conhecer o folclore brasileiro: “Música de feitiçaria” (a conferência de 1932) e “O samba rural paulista” (1937). Tais textos indicam com clareza a transição do autor entre os contextos intelectuais pré-modernista e o modernista, adotando aqui os termos utilizados por Marylin Strathern, ao referir-se aos deslocamentos sofridos pelo entendimento antropológico da etnografia. A alteridade buscada e narrada apresenta-se aqui como diferença interna encontrada no povo que não só provê fontes de originalidade criativa como liga a cultura brasileira contemporânea ao autor a dimensões universais. Em discussão com a ampla fortuna crítica do autor, venho elaborando o assunto abordado em textos publicados ao longo dos anos e pertinentes à proposta em pauta.

Penso também em textos em que a alteridade é buscada no desejo de conhecimento do passado, como Modinhas imperiais (1930) e, especialmente, o texto que inclui reflexão sobre o escultor Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814). O texto se destaca como elaboração (1935) oriunda da célebre viagem a Minas Gerais de 1924, a “viagem de descoberta do Brasil”, da qual o autor participou junto com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Blaise Cendrars, Olívia Guedes Penteado entre outros. Deve-se lembrar aqui da viagem anterior de Mário de Andrade a Minas que, realizada em 1919, resultou também em texto sobre a arte religiosa no Brasil (1920).

O enfoque desses textos e respectivos contextos norteia o estudo dos lugares e sentidos da etnografia experimentados por Mário de Andrade, em associação ao tema da viagem/excursão, idealizada ou realizada, mais distante ou mais próxima. Tais viagens emergem como dispositivos de deslocamento do olhar de partida que fundam a possibilidade do contato renovador com alteridades temporais e espaciais e propiciam na obra de Mário de Andrade arranjos narrativos e regimes de escrita diversos.

Uma arte da rasura: apagamentos, reescritas e aparições na arte brasileira atual

Maria Angélica Melendi

Uma arte da rasura: apagamentos, reescritas e aparições na arte brasileira atual

No projeto Cara de Índio (2011) – realizado durante sua viagem entre os extremos sul e norte da América –, o artista Paulo Nazareth se propõe a identificar índios urbanos e se fotografar ao lado de outros homens e mulheres com cara de índio para que se possa estabelecer uma comparação entre os rostos de ambos.. O projeto se materializa em uma série de flyers impressos em papel de jornal e faz parte de outro mais abrangente intitulado Notícias de América (que pode ser apreciado no blog http://artecontemporanealtda.blogspot.com/, na seção homônima). No texto do flyer, meramente informativo, aparece uma afirmação inesperada: o artista evoca o mestiço: “comparar a cara mestiça à cara do outro”. Mas quem é o mestiço? Quem é o outro? O índio urbano? Paulo?

Os índios urbanos seriam aqueles indivíduos desarraigados da tribo, seja porque se afastaram dela, seja porque ela já não existe. Em todas as populações da América Latina existem índios urbanos, na sua maior parte descendentes de grupos extintos e de brancos. Muitos deles perderam não somente a língua natal, mas também a religião e as formas de sociabilidade.

No Brasil, não costumamos reconhecer essa mestiçagem, cegados pela evangelização e pelo processo de branqueamento impulsionado durante vários séculos. Ao reconhecer essa mestiçagem, Paulo Nazareth está se debruçando sobre um dos múltiplos passados inexplorados ou esquecidos da nação.

Paulo Nazareth, que nasceu em Governador Valadares, interior de Minas Gerais, e viveu sempre na periferia, é um artista de notável projeção no sistema da arte ocidental. Em Nova York Miami, Lyon ou Veneza, ele mostra suas obras singelas e grandiosas, feitas de carne de porco salgada, banha, carvão, polvilho e sal. Exibe seus papéis de jornal impressos em tipografia, nos quais narra com imagens e palavras as histórias que foram apagadas e que agora aparecem reescritas: as histórias roubadas da alma do Brasil. Uma “ação de retaguarda” (rearguard action) como queria, em 1987, o artista Peter Halley. Uma ação através da qual se realimenta a cultura com seus próprios restos, com aquilo que foi descartado na hora de determinar o que tem valor.

Contagem de mundos: o singular cosmopolita cinema mineiro – Filmes de Plástico + Affonso Uchôa

Marco Antonio Gonçalves

Contagem de mundos: o singular cosmopolita cinema mineiro – Filmes de Plástico + Affonso Uchôa

Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais é de onde partem as narrativas dos 18 filmes da produtora Filmes de Plástico (André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins, Thiago Correia) e dos 3 filmes do diretor Affonso Uchoa – A vizinhança do tigreArábia Sete anos em maio. Filmes que se estruturam a partir da vontade de conhecer mais seu próprio bairro, sua cidade, seus personagens, fazer novos amigos e, ao mesmo tempo, descobrir seus sonhos, suas frustrações, suas perspectivas que têm como pano de fundo o trânsito entre narrativas existenciais e construções reflexivas sobre a exclusão social, o mundo do trabalho e suas agruras. Filmes que partem de Contagem para o mundo: Cannes, Roterdã, Nova Iorque, Lisboa.

Filmes em que ecoam problemas e questões capazes de redesenhar uma imagem do Brasil em que se inserem, agora, temas incontornáveis, como raça, classe, gênero, produzindo novas conexões, apontando para outras configurações socioculturais da sociedade brasileira contemporânea. A força dessa produção cinematográfica é que ao se afastar, definitivamente, de um modo de narrar a história da colonização brasileira, atualiza o presente através de “elementos soltos”, fragmentos, descortinando os conflitos, as batalhas, a guerra do dia a dia. Essa figuração imagética sitia lugares e espaços naturalizados, dessubstancializa conceitos como os de localidade, periferia, identidade, memória, finitude, história, ficção, documentário. Evoca diálogos fecundos através de reconfigurações da alteridade e da distopia. Ao propor temas insurgentes repensa o cinema enquanto lócus de contestação e crítica a projetos, tão redentores quanto autoritários, sobre o Brasil.

Cinema que se realiza, fortemente, como produção colaborativa construída na vizinhança e na partilha. Essa capacidade imaginativa elaborada por processos de intimidade, conflito, contradições é o que nos reenvia à cena etnográfica produzida por esses filmes. Investem numa narrativa sobre e de Contagem, que é aqui, literalmente, contagem de mundos, histórias vividas, intimidades, diários de vidas que, ao confrontarem mundos reais e imaginados, produzem imagens contraditórias que esgarçam as fronteiras entre o periférico, o cosmopolita, o singular e o universal.

Arte, cultura e esporte na Belo Horizonte modernista

Marcelino Rodrigues da Silva

Arte, cultura e esporte na Belo Horizonte modernista

O objetivo da pesquisa é investigar as relações entre arte, literatura e cultura nos contextos brasileiro e mineiro de meados do século XX, com especial atenção ao estudo das dimensões culturais do movimento modernista e das repercussões de seus projetos estéticos e político-culturais no cenário artístico e na cultura esportiva da cidade de Belo Horizonte, durante as décadas de 1930 e 1940. Para a realização desse objetivo, portanto, deverão ser desenvolvidas duas frentes de trabalho. Na primeira, serão estudados textos dedicados à história, às propostas e às diferentes manifestações do modernismo brasileiro, desde o seu surgimento, em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos anos 1910 e 1920, a partir dos quais seja possível colocar em foco a dimensão cultural das ideias e dos projetos estéticos e políticos desse movimento. Na segunda frente de trabalho, deverão ser analisadas diferentes produções artísticas e culturais efetivadas na cidade de Belo Horizonte durante o período em foco, especialmente as publicações do jornalismo esportivo, que viveu nessa época uma fase particularmente fértil e criativa, com a constituição de uma mitologia esportiva diferenciada da que vinha se desenvolvendo nas duas principais metrópoles do país. Entre essas publicações, destaca-se o trabalho do cartunista, artista plástico e escritor Fernando Pieruccetti, personagem importante na introdução do modernismo e das tendências modernas nas artes plásticas mineiras, durante a década de 1930, e responsável pela criação, em charges produzidas a partir dos anos 1940, das mascotes que ainda hoje representam os principais clubes de futebol do estado, como o Galo, a Raposa e o Coelho, símbolos respectivamente do Atlético, do Cruzeiro e do América. O que se pretende, nessa análise, é tomar a produção do jornalismo esportivo belo-horizontino e a trajetória criativa de Fernando Pieruccetti como pontos de partida para uma investigação sobre as interações, trocas e atravessamentos entre as artes, a literatura e a cultura, assim como entre as tendências e projetos artísticos que circulavam no Brasil e no mundo naquele momento e elementos das tradições e da cultura popular local e regional.

Minas, imagens do mundo: Joaquim Pedro de Andrade entre duas gerações

Luis Felipe Kojima Hirano

Minas, imagens do mundo: Joaquim Pedro de Andrade entre duas gerações

Filho de dois mineiros, Graciema e Rodrigo Melo Franco de Andrade, Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), cineasta carioca, dedicou grande parte de sua cinematografia à releitura do modernismo paulista – através de filmes como Macunaíma (1969) e O homem do pau brasil (1982) – e à constituição cinematográfica de um certo patrimônio mineiro – o que se torna aparente nas películas O padre e a moça (1965), inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, Os inconfidentes (1972), que revê a Inconfidência Mineira, e no curta-metragem O Alejadinho (1978).

O presente projeto visa investigar melhor essas duas vertentes da produção cinematográfica de Joaquim Pedro, duas dimensões, por assim dizer, que podem ser lidas em conjunto, como eixos que giram em torno do pêndulo local/universal. Por um lado, esse conjunto de filmes tece intensos diálogos com os projetos culturais e artísticos da geração de seu pai – fundador do IPHAN e amigo de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Pedro Nava, entre outros. Por outro lado, essa série de filmes se relaciona com os ideais do Cinema Novo, do qual o diretor fez parte, e dialoga especialmente com o legado da cinematografia de Humberto Mauro, que tem as cidades mineiras como locação e, a partir dos fins da década de 1960, com o cinema popular carioca dos decênios de 1940 e 1950.

Seu cinema, ao mesmo tempo que tecia uma relação umbilical com o legado paterno, respondia fortemente ao contexto da ditadura militar e aos impasses do cinema brasileiro daquela época. Assim, é possível dizer, a pesquisa irá se aprofundar nesse ponto, buscando entender em que medida Joaquim Pedro, ao filmar obras e figuras que se tornaram marcantes na produção artística e cultural do Brasil, está sempre a falar de si mesmo e da sua geração. Há, nessa característica, guardadas as devidas proporções entre o cinema e a literatura, uma possível conexão entre o modo com que Joaquim Pedro narra seu tempo e uma característica forte da literatura mineira, qual seja, a de articular o universal ao particular como reminiscência em primeira pessoa. Penso, a partir disso, que esse conjunto de filmes permite aquilatar uma certa leitura que conecta Minas Gerais ao modernismo da Semana de 22, a partir de um ponto de vista de um diretor que não deixa esconder a experiência visceral de viver intensamente a geração de seu pai e a sua própria.

Futebol e atuação pública: o caso de Minas Gerais

Lucas Correia Carvalho

Futebol e atuação pública: o caso de Minas Gerais

A pesquisa se concentra nas trajetórias particulares de alguns dos mais importantes jogadores mineiros da história do futebol brasileiro, sobretudo Tostão (Eduardo Gonçalves de Andrade) e Reinaldo (José Reinaldo de Lima). Trajetórias distintas, mas reveladoras de uma ambiência em que o futebol despontava como esporte de massa e se integrava à dinâmica urbana de Belo Horizonte. Fundada em 1897, logo após a Proclamação da República Primeira, Belo Horizonte foi a primeira cidade projetada do Brasil. Seus traços retos e avenidas largas seguiam os modelos urbanísticos europeus, incluindo parques e jardins como elementos fundamentais da paisagem urbana. Contudo, o desenho essencialmente urbano e moderno contido no plano piloto em contraste com a antiga e decadente capital de Minas Gerais, Ouro Preto, não era o que as circunstâncias sociais permitiam. O rápido crescimento populacional extrapolou os limites criados pelo cinturão formado pela Avenida do Contorno, e os traços da cidade rapidamente assumiram contornos tortuosos, à revelia da racionalidade que se queria primeiramente imprimir. Características modernas e tradicionais conviviam intensamente e sociabilidades provincianas se imiscuíam ou mesmo sobrepujavam aquelas mais cosmopolitas, as quais, na cabeça dos engenheiros, deveriam ser a base do movimento da cidade. Projetada para a dinamicidade e velocidade de uma sociedade de massas, Belo Horizonte manteria vivo seu provincialismo e ruralidade, esvaziando seus espaços públicos. O futebol e os clubes se tornaram formas intensas de convívio e mesmo de associativismo dessa sociedade que se massificava. Como ademais revela sua relação com o espaço urbano em diversas paragens, no futebol o espírito coletivo de uma sociabilidade tradicional em decadência é reavivado, mas em um contexto social em que não o é mais possível da mesma maneira, dada a crescente impessoalização e massificação dos contatos.

As trajetórias de jogadores como Tostão e Reinaldo são reveladoras dessa ambiência social, sobretudo porque, cada um à sua maneira, fizeram do futebol um espaço público. Tostão, tímido, com perfil intelectual-acadêmico, com vasta publicação em jornais sobre futebol, seus dilemas contemporâneos e a relação com a política. Reinaldo, ao contrário, extrovertido, sempre teve como marca as polêmicas e as opiniões fortes, como deixa clara a famosa comemoração logo após o gol, com o punho cerrado para cima. Em campo, ambos são reconhecidos pela técnica aprumada, embora com estilos distintos: Tostão, pela sua leitura do jogo, como se guardasse milimetricamente todas as coordenadas do campo e medisse os passes de acordo com elas; Reinaldo, veloz, driblador, tinha as características do que para muitos é a essência do futebol brasileiro, aquilatada pela presença na pequena área e a destreza do chute a gol. Os dois jogadores, ídolos dos dois maiores clubes de Minas, Cruzeiro e Atlético-MG, sofreriam com as constantes lesões e se aposentariam precocemente. Outro mineiro, o maior futebolista de todos os tempos, Pelé, serve aqui de contraponto, menos pela técnica (incrivelmente refinada e de criatividade única) e mais pela trajetória: nascido em Três Corações, logo quando menino migra para Santos, onde encanta e desponta como revelação. Seu engajamento em questões públicas seria parco, em contraste com a projeção mundial que teve, o que é expresso inclusive pela diferenciação, espécie de bordão, entre o Edson e o Pelé. Há ponto de comparação interessante ao caso “mineiro” aqui destacado: a denominada “democracia corintiana” dos anos 1980, liderado por um grupo de futebolistas politizados como Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon no maior clube de São Paulo, o Corinthians.

O objetivo da pesquisa, portanto, é investigar o modo como a interseção entre urbanidade, espaço público, atuação pública é revelada no futebol e na trajetória desses jogadores e como ela se revela sobretudo no “caso mineiro” em um contexto de crescente politização nos anos 1970 e 1980.

Ciência e política nos pensamentos de Simon Schwartzman e Bolívar Lamounier

Leonardo Belinelli

Ciência e política nos pensamentos de Simon Schwartzman e Bolívar Lamounier

No seu primeiro plano, a pesquisa pretende examinar, em perspectiva comparada, as interpretações de Simon Schwartzman e Bolívar Lamounier sobre a formação histórica brasileira, ambas centradas na identificação do Estado como fator impeditivo do desenvolvimento social, econômico e político da sociedade brasileira. Nesse nível, trata-se de procurar compreender as especificidades das ideias produzidas pelos dois intelectuais e suas relações com seus posicionamentos políticos, conhecidamente liberais. Trata-se, pois, de investigar as relações entre ciência e política nos pensamentos de ambos os autores.

Em outra dimensão da pesquisa, procuraremos compreender como o nexo entre ciência e política se relaciona com elementos comuns às trajetórias acadêmicas e políticas de Schwartzman e Lamounier, como, por exemplo, a formação em Sociologia e Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) nos anos 1960, a passagem pela academia norte-americana em seus estudos doutorais e a institucionalização de novas agendas paras as ciências sociais brasileiras. Desse ângulo, o que está em jogo é a relação entre trajetórias intelectuais e ideias.

Os dois planos da pesquisa (ciência/política e intelectuais/ideias) serão conectados e problematizados a partir da noção de cosmopolitismo nas ciências sociais brasileiras – nas acepções compartilhadas pelo “quase manifesto” que articula as pesquisas do Minas Mundo. Se o cosmopolitismo pode ser entendido como uma forma de convivência descentrada com o universal a partir do local – e, nesse sentido, é tomado como um ponto de vista a partir do qual se vive e pensa –, o que está em jogo é a tematização do que poderíamos talvez chamar, muito sumariamente e apenas como hipótese introdutória, de recusa de Schwartzman e Lamounier em tomar o “local” como fonte de reconstrução da sociabilidade brasileira, uma vez que ambos identificariam a formação histórica brasileira como ancorada em práticas de dominação iliberais. Recusa, talvez – e isso apenas a pesquisa poderá dizer –, já expressa nos próprios pontos de vista a partir dos quais procuram compreendê-las, inspirados em teorias mainstream da ciência política norte-americana dos anos 1960.

A partir da problematização dos eixos mencionados, o projeto procurará tanto contribuir para a interpretação dos pensamentos e das trajetórias de dois cientistas sociais importantes no processo de consolidação das disciplinas em que se inserem profissionalmente, como, em sentido mais amplo, refletir sobre as complexas relações entre liberalismo e cosmopolitismo.

Cosmopolitismo e dependência: Theotônio dos Santos

Karim Helayël

Cosmopolitismo e dependência: Theotônio dos Santos

Levando em consideração a proposta mais ampla de discutir a relação entre o cosmopolitismo e a cultura mineira, afigura-se incontornável tratar da obra do economista mineiro Theotônio dos Santos (1936-2018). Ao experienciar o exílio, Santos forja uma potente interpretação do tipo de capitalismo que se constituiu na América Latina, cujas formulações sobre a dependência lograram forte ressonância no contexto intelectual da região nos anos 1960-1970. No entanto, sua capacidade de interpelação cognitiva não parece ter se esgotado em seu contexto imediato, uma vez que suas proposições vêm sendo mobilizadas pela teoria sociológica produzida contemporaneamente. Nesse sentido, a pesquisa a ser desenvolvida girará em torno da produção e circulação de repertórios intelectuais, tomando como objeto de estudo o modo pelo qual o diagnóstico da dependência, formalizado pelo intelectual mineiro, tem sido incorporado pelo debate sociológico contemporâneo a respeito da geopolítica do conhecimento e da “dependência acadêmica”. Levarei em conta ainda a sua recepção em trabalhos que têm como objetivo pensar a produção das ciências sociais na América Latina em oposição a perspectivas eurocentradas. O empreendimento proposto procurará mensurar, desse modo, a maneira pela qual as formulações de Theotônio dos Santos contribuíram para a construção de diagnósticos que vêm ressaltando as assimetrias entre países comumente entendidos como produtores de teorias – no caso, os países centrais – e aqueles que seriam os países consumidores de repertórios teóricos – mais especificamente, os periféricos.

Sendo assim, a minha hipótese é a de que, a despeito da ampla repercussão do famoso livro Dependência e desenvolvimento econômico na América Latina, de 1969, escrito em parceria por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, a perspectiva de Theotônio dos Santos sobre a dependência parece ter interpelado de modo muito mais contundente a vertente sociológica contemporânea vinculada ao debate da geopolítica do conhecimento e da “dependência acadêmica”. Ou seja, os trabalhos de Santos, ao articularem as dimensões local e global do capitalismo dependente, podem ter desempenhado importante papel em reflexões relativamente recentes que visam problematizar o processo de produção e circulação do conhecimento sociológico.

A Causa da Patrimônio: civilização, subjetividade e autenticidade em Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969)

José Reginaldo Santos Gonçalves

A Causa da Patrimônio: civilização, subjetividade e autenticidade em Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969)

Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969) integra uma constelação de intelectuais mineiros associados ao modernismo nos anos 20, o conhecido “grupo da Rua Bahia” em Belo Horizonte. Em estudo produzido nos anos 90 sobre modernistas mineiros, destaca-se o perfil intelectual do grupo pelo seu compromisso com a razão e a universalidade, um compromisso com a “civilização”, assumindo como tarefa primordial inserir o Brasil “no concerto das nações”. Nessa constelação, RMFA virá a ocupar uma posição singular. Sua carreira intelectual e profissional vai estar existencialmente associada à criação e à direção do SPHAN – o então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que ele, sob indicação de Mário de Andrade (1993-1945) e do então Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema (1900-1985), vai dirigir a partir do ano de 1937 até 1967, pouco antes de sua morte em 1969.

A proposta é descrever e analisar essa posição, tal como ela se articula intelectualmente nos artigos, pareceres, discursos, livros e na performance pública de RMFA ao longo dos trinta anos em que esteve à frente dessa instituição. Em sua produção intelectual e em sua atuação administrativa ressoa o ideário dos intelectuais mineiros de sua geração, notadamente seu compromisso com a ideia de “civilização”. Em resumo, para RMFA, a “causa do patrimônio” era primeiramente a causa da civilização.

No entanto, um aspecto importante nas concepções daquele grupo de intelectuais modernistas consiste na mediação sensível entre o ideário universalista contido na ideia de civilização e a valorização de uma cultura autenticamente nacional. Distinguindo a singularidade do patrimônio brasileiro em relação à herança clássica das “nações civilizadas”, diz ele em 1936: “A poesia de uma igreja brasileira do período colonial é, para nós, mais comovente do que a do Parthenon. E qualquer das estátuas que o Aleijadinho recortou na pedra-sabão para o adro do santuário de Congonhas nos fala mais à imaginação que o Moisés de Miguel Ângelo”.

No contexto de um processo universal de civilização, o Brasil é oposto a nações “mais maduras” ou “mais civilizadas”. Isso, no entanto, não traz como consequência uma visão negativa, pessimista da cultura brasileira, mas o sentido de que se tornará uma nação plenamente moderna, civilizada e madura, na medida em que os brasileiros venham a reconhecer, assumir e defender sua cultura ou “tradição”, como parte da civilização universal.

A mesa dos mineiros narra Minas

José Newton Meneses

A mesa dos mineiros narra Minas

A proposta de pesquisa objetiva refletir sobre práticas e gostos alimentares no âmbito de uma construção cultural mais ampliada em um território específico, as Minas Gerais. Quer ver a comida a partir de uma perspectiva de seus fazeres e de seus discursos. A comida é linguagem e nesse sentido narra uma cultura. Parte-se de um viés crítico à tradição ensaística sobre os regionalismos estanques das cozinhas e abre-se, como propõe o projeto Minas Mundo, para considerar diálogos amplos de uma construção cultural atenta ao outro, cosmopolita, descentrada, mas buscando vasculhar o seu próprio quintal, um mundo anexo à cozinha. A pesquisa se apoia em uma trajetória de análises de inventários post mortem e de documentos camarários do universo dos mais de 300 anos de conformação do espaço administrativo de Minas e das narrativas de estrangeiros cientistas-viajantes que se interessaram em conhecer, ordenar e registrar as paisagens dessa capitania, província e estado; paisagens natural e humana narradas a partir de vivências e memórias. Esse percurso de crítica a documentos cartorários, administrativos e a narrativas de viajantes ilumina uma leitura nova, de narrativas literárias que não apenas perscrutam os quintais, as mesas e os fogões, mas, com verticalidade, desvelam as memórias de gente cuidadosa com o gosto alimentar dos mineiros. A literatura tem se apegado, geralmente, a memórias afetivas dos autores encarnadas em seus personagens. Embora essas categorias de interpretações possam ser inventariadas e tipificadas, a pesquisa quer ir além: almeja confrontar o narrado e a transmissão da prática alimentar no tempo, ou seja, a tradição da comida, que incorpora mais mudanças que permanências, mais valores que preceitos, mais gostos que necessidades. Incorpora mais diálogos que apego a raízes. Indica um ethos.

Nesse sentido, a investigação perscruta os textos literários vendo-os como fatos sociais a perceberem uma Minas que, desde seu tempo colonial, “é portuguesa, mas não é Portugal”; tem na herança lusa um eixo importante, mas não rígido; na raiz ameríndia um alicerce aberto às levezas das sazonalidades; nas culturas africanas um baluarte essencial de cerne moldável, seguindo as várias culturas da África, que também nos colonizam e nos edificam. São culturas de saberes plurais, maleáveis e diversos. Sobretudo, em sua cozinha e práticas, Minas acrescenta a interrelação das regiões do Brasil, das migrações fronteiriças em busca da construção de riquezas. O processo histórico da cozinha mineira é marcado pelo trânsito inter-regional e pela receptividade fácil e comedida do outro.

A mesa dos mineiros narra Minas! Narra a construção de um gosto e conduz a inúmeros relatos que buscam sua compreensão. Compreendê-las – a mesa, a cozinha, a comida e suas narrativas – exige confrontar contradições, juntar texturas, aventurar-se sem a prioris, com argúcia crítica e desapego a modelos dados.

A confabulação mineira

José Miguel Wisnik

A confabulação mineira

O projeto Minas Mundo nos desafia a abordar as relações íntimas e avessas entre indivíduo e sociedade, sujeito e família, cultura e meio físico, localidade e nação, circunstância e universo, que se tramam em Minas Gerais.

N’ “O colóquio das estátuas”, Drummond vislumbra nos profetas do Aleijadinho uma espécie de figuração emblemática do modo mineiro de estar-no-mundo. Poder-se-ia conceber em outro lugar, pergunta ele, essa “reunião fantástica” em que profetas confabulam sem palavras, “entre cones de hematita”, mantendo “com o universo uma larga e filosófica interconexão”, senão nessa terra paradoxal em que “a febre grosseira” da mineração se transmuta em atmosferas místicas, e na qual a sabedoria pastoril converte-se na “loucura organizada, explosiva e contagiosa” das revoluções liberais?

Estão envolvidas nessa confabulação silenciosa a economia mineradora e agrária, a religião, a política, a arte e a indagação metafísica. Escrevi, em Maquinação do mundo – Drummond e a mineração, que esse texto pode ser lido considerando suas afinidades com “A máquina do mundo” e “Relógio do Rosário”, poemas escritos na mesma época que a crônica. E sugeri existir um diálogo de recados não intencionado entre “A máquina do mundo” e “O recado do morro” de Guimarães Rosa, textos em que os morros confabulam silenciosamente, e nos quais a geografia física e a geografia humana se mostram inseparáveis.

Confabular é “trocar ideias”, mas “em tom suspeito, misterioso ou secreto” além de “combinar, maquinar, tramar” (Houaiss). Ao mesmo tempo, “contar histórias fantasiosas como se verdadeiras fossem”. De algum modo, a trama semântica da palavra inclui o exercício político e a fabulação, no sentido mesmo de ficcionalização. Em outros termos, um rebatimento entre o político e o literário que não deixa de ser significativo do lugar simbólico ocupado por Minas no Brasil. A expressão “confabulação mineira” ecoa propositalmente “inconfidência mineira” – acontecimento histórico-político no qual o bastidor da “confidência”, isto é, do segredo e da intimidade, está latente. A propósito, é o poeta da “Confidência do itabirano” que diz expressamente que “só mineiros sabem”, e que “não dizem / nem a si mesmos o irrevelável segredo / chamado Minas”. Trata-se de procurar correspondentes histórico-sociais para essa costura de confabulação, in/confidência, segredo e recado, na sondagem das múltiplas dimensões que levaram à construção – aliás convincente – de Minas Gerais enquanto mundo.

Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado: uma história do Suplemento Literário de Minas Gerais

João Pombo Barile

Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado: uma história do Suplemento Literário de Minas Gerais

Este projeto tem como objetivo contar parte da história do Suplemento Literário de Minas Gerais (1966-1991) e sua relação com Murilo Rubião, fundador do jornal. Ao unir nomes já consagrados a autores iniciantes, Murilo conseguiu estabelecer um diálogo entre tradição e vanguarda. A ideia deste ensaio surgiu depois de muitas conversas com o escritor Silviano Santiago. E de um texto seu chamado “A permanência do discurso da tradição no modernismo”. A pesquisa se dividirá nas seguintes etapas:

I) A criação do Suplemento Literário

O SLMG, surgido em setembro de 1966, retomou uma antiga tradição do Diário Oficial do Minas Gerais, que sempre teve uma seção noticiosa de literatura. Vou contar um pouco dessa história e do surgimento da chamada Geração Suplemento. Esta parte irá de setembro de 1966, quando o jornal é fundado, até a perseguição que o escritor e crítico Rui Mourão sofreu dos militares, em 1970.

II) O velho e o novo

Esta parte vai compilar a série de depoimentos, “O escritor mineiro quando jovem”, que mais tarde teria matérias para escritores de outros estados. Além disso, serão listadas, e analisadas, as traduções feitas no período por escritores como Sérgio Sant’Anna e Jaime Prado Gouvêa. Esta parte da pesquisa conta como Ângelo Oswaldo, com apenas 23 anos de idade, se tornaria diretor de redação e abriria o jornal para outras áreas além da literatura: música, cinema e artes plásticas.

III) A censura no Suplemento

Aqui vou analisar o período em que o escritor Mário Garcia de Paiva dirigiu a redação. Junto com a crítica literária Maria Luiza Ramos, analisarei o episódio de censura sofrido pelo periódico quando um número especial, uma amostra do Conto Brasileiro Atual (24 textos de ficção), foi mutilado pela censura. Vamos mostrar como jornalistas se mobilizaram para denunciar a censura que o Suplemento estava sofrendo.

IV) A abertura política

Na última etapa analisarei o período em que Wander Piroli esteve no comando e sua renúncia. Vou mostrar como Wander inovou na diagramação e parte visual do jornal, publicando literatura de cordel e abrindo espaço aos escritores que eram abertamente contra o regime militar.

Por fim, pretendo estudar o período final da vida de Murilo Rubião, quando o contista, ao ser nomeado diretor de Imprensa Oficial por Tancredo Neves em 1982, irá promover uma nova revolução no jornal.

Trajetória Vianna: caminhos de Klauss e Angel Vianna na dança brasileira

Joana Ribeiro da Silva Tavares

Trajetória Vianna: caminhos de Klauss e Angel Vianna na dança brasileira

Iniciada no meio do balé clássico e da dança moderna, nos anos 1950, em Belo Horizonte, Minas Gerais, a trajetória do casal de bailarinos mineiros Angel (1928) e Klauss Vianna (1928-1992) expandiu-se para diversos terrenos como a dança contemporânea, o teatro, a música, a educação somática e o campo da saúde. A partir de uma frase que Klauss Vianna costumava dizer em seus cursos, ao se referir ao ato de dançar – “não decore passos, aprenda um caminho” – seguiremos a trajetória do casal Vianna percorrendo as capitais em que estabeleceram moradia: Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo (com um breve período em Salvador). Nos dias de hoje, o trabalho corporal dos Vianna figura tanto na Escola e Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, quanto através de obras artísticas, práticas corporais, cursos e publicações no Brasil e no estrangeiro. Mapear a trajetória da obra capital de Klauss e Angel Vianna, destacar seus principais pontos de ancoragem e identificar suas reverberações traz para o centro da discussão um projeto pioneiro, originalmente moderno e interdisciplinar, cujas raízes mineiras emergem em contínuo movimento na história da dança brasileira.

Mário de Andrade e narrativas sobre Reis e Rainhas de uma África mineira

Joana Ramalho Ortigão Corrêa

Mário de Andrade e narrativas sobre Reis e Rainhas de uma África mineira

A paixão de Mário de Andrade pela cultura popular e pelo folclore, e também seu ímpeto em viajar ao encontro de suas fontes primárias, constituíram traços marcantes dos desdobramentos do modernismo brasileiro. A mata-virgem, onde nasceu seu herói Macunaíma em 1928, tornou-se, nos anos seguintes, protagonista de um cuidadoso labor de decifração, estimulado pela certeza do vigor original que confrontava a desbotada condição colonial. Neste estudo, proponho elucidar as perspectivas de Mário de Andrade na busca de traços da presença africana no Brasil, diluídos e ressignificados no bojo da nacionalidade tupiniquim, a partir de suas pesquisas sobre os Congos e as narrativas míticas e históricas dramatizadas pelas cortes festivas de reis e rainhas negras, especialmente em Minas Gerais, onde descendentes de um grande contingente de povos centro-africanos escravizados perpetuaram uma extensa tradição de Festas de Reinado.

Proponho percorrer os caminhos investigativos de Mário de Andrade sobre os Reinados negros e a presença de sua obra nos estudos que o seguiram para compreender o cosmopolitismo mineiro a partir das narrativas literárias e orais sobre a africanidade e os heróis negros que desafiam a temporalidade histórica. O estudo inaugural de Mário de Andrade sobre os Congos – uma série de cinco artigos em sua coluna de música no Diário de S. Paulo publicados em 1934 posteriormente integrados em texto único e incluídos postumamente por Oneyda Alvarenga na edição de Danças dramáticas do Brasil – é uma chave fundamental para compreendermos na tradição narrativa literária, nos estudos de folclore e na oralidade popular afro-mineira o papel simbólico de heróis míticos como a Rainha Ginga de Angola e o africano Rei Galanga, consagrado como Chico Rei de Ouro Preto. Se a moderna tradição mineira é constituída por relações indissolúveis entre presente e passado, à afro-mineiridade acrescenta-se a continuidade espacial entre terras guardadas por montanhas e uma África atemporal, magicamente conectadas por travessias calungas. Reis Congos e Rainhas Gingas das embaixadas e danças populares são elos de continuidade que borram o tempo, criando um nebuloso conjunto dramático de personagens míticas, literárias e históricas.

Três poetas árcades

Heloisa Starling

Três poetas árcades

A proposta tem por objetivo formular um tema diretamente vinculado ao conceito de cosmopolitismo em Minas Gerais para investigação e debate no grupo de pesquisa Minas Mundo. O tipo de trabalho que pretendo desenvolver busca analisar a questão do localismo/cosmopolitismo da cultura em Minas retomando a atuação política e a produção literária de três poetas que alteraram de maneira decisiva a linguagem política e literária na América portuguesa, durante a segunda metade do século XVIII: Manoel Inácio da Silva Alvarenga, Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga. O cosmopolitismo é a matéria de composição desse repertório e decorre tanto da atração para o local quando da sua combinação com o que veio de fora. As ideias circulavam, foram submetidas a considerações de ordem prática, e puderam ser selecionadas, reinterpretadas e transformadas em uma linguagem política. No limite, três poetas acenderam o pavio da Conjuração – nas Minas, em 1789; no Rio de Janeiro, em 1794.

Um mineiro d’além mar: D. Antônio Ferreira Viçoso

Helga Gahyva

Um mineiro d’além mar: D. Antônio Ferreira Viçoso

Os estudos sobre o processo de reforma da Igreja Católica durante o Segundo Império concedem lugar de destaque a D. Viçoso. Afinal, ordenado bispo de Mariana, transformou o Colégio do Caraça em novo modelo de seminário episcopal. Sob orientação dos moldes tridentinos, tanto funcionou como inspiração para a fundação de outras instituições religiosas, quanto formou importantes nomes do clero ultramontano brasileiro.

Nascido na península portuguesa de Peniche, em 1787, o vicentino Antônio Ferreira Viçoso chegou ao país em 1819, junto com o padre Leandro Rebelo e Castro, atendendo a convite de D. João VI para missionar entre indígenas do Mato Grosso. Essa tarefa, contudo, acabou a cargo dos capuchinhos, e novos planos o levaram, inicialmente, à breve período no Caraça, de onde foi deslocado para o Seminário do Jacuecanga, no Rio de Janeiro. Na aurora dos anos 1840, estava já o futuro conde da Conceição de volta ao seminário mineiro. Alçado ao bispado de Mariana em 1844, ele permaneceu no cargo até sua morte, em 1875.

Durante esse período, empenhou-se ativamente em conferir feições ultramontanas a um clero outrora majoritariamente regalista. Mas, se não é contestada sua relevância para o movimento reformador, pode-se discernir pelo menos três conjuntos de interpretações sobre a sua obra.

Em primeiro lugar, aquela produzida por membros da Igreja, caracterizada por teor marcadamente apologético. Destaca-se, dentre tais obras, a primeira biografia de D. Viçoso, escrita por D. Silvério Pimenta, seu sucessor, em 1876.

A partir dos anos 1970, solidificou-se visão, elaborada por autores vinculados à Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA), segundo a qual teria sido o bispo agente local do processo de “romanização” conduzido pelo Vaticano. Nessa chave, D. Viçoso surge como fiel seguidor das orientações do papa Pio IX. Tal abordagem encontra-se tanto em várias das publicações editadas pelo órgão, quanto nas páginas da Revista Eclesiástica Brasileira (REB).

Nas primeiras décadas do século XXI, por sua vez, despontaram perspectivas alternativas, gestadas no meio acadêmico, preocupadas em perceber menos a cega obediência dos padres reformadores brasileiros à Cúria Romana do que os tensos e pouco lineares processos por meio dos quais a agenda ultramontana foi apropriada pelo clero nacional. Por esse prisma, revelam-se motivações múltiplas sob as ações de D. Viçoso.

Nosso objetivo consistirá em mapear e discutir esses diversos pontos de vista aos quais deu ensejo a atuação do bispo de Mariana. Cremos que a tarefa será capaz de oferecer pistas para pensar as relações entre cosmopolitismo e localismo na cultura brasileira, questão geral subjacente ao projeto Minas Mundo.

Intelectuais e América Latina: Darcy Ribeiro e a interação do Brasil com América Latina

Helena Bomeny

Intelectuais e América Latina: Darcy Ribeiro e a interação do Brasil com América Latina

O projeto busca analisar a posição de Darcy no quadro geral de intelectuais de sua geração e cotejar sua interpretação com a defendida por Richard Morse a respeito das Américas, do Norte e do Sul. O ponto a ser realçado é a originalidade de Darcy com relação aos intelectuais brasileiros na conexão que cultivou com América Latina. Darcy se separava de sua geração em duas dimensões. A escrita mais literária – que o aproxima de Richard Morse –, o que abriu frente de embate com intelectuais empenhados na institucionalização das Ciências Sociais no Brasil; e a interlocução permanente com a América Latina que, como Morse, via em chave não negativa ou inferior, mas própria a exigir qualificação mais depurada. Esse posicionamento fez de Darcy Ribeiro um intelectual distinto da própria tradição de cientistas sociais de Minas Gerais, empenhados, em grande monta, com os processos de institucionalização das Ciências Sociais em moldes metodologicamente defendidos como mais “rigorosos”, mais afeitos à tradição norte-americana de desenvolvimento científico e acadêmico.

Transitando entre esferas: ação política e pensamento antiliberal em Francisco Campos

Gabriela Nunes Ferreira

Transitando entre esferas: ação política e pensamento antiliberal em Francisco Campos

A pesquisa proposta tem como objeto a trajetória e o pensamento político do jurista mineiro Francisco Campos (1891-1968) durante as décadas de 1920 e 1930. Formado em Direito na Faculdade Livre de Direito, em Belo Horizonte, em 1919 ingressou na política como deputado estadual nas fileiras do tradicional PRM, muito ligado ao então governador do estado, Artur Bernardes. Em seguida, como deputado federal durante a presidência de Artur Bernardes, esteve empenhado na aprovação de medidas que ampliassem os poderes do Executivo nacional contra ameaças à ordem, como por exemplo aquela representada pelo movimento tenentista. De 1926 a 1930, como secretário do Interior do governador Antônio Carlos, foi responsável por uma ampla reforma do ensino inspirada nos postulados da Escola Nova.  Esteve ligado ao Estado varguista desde o seu nascedouro, participando da conspiração para a Revolução de 1930 e, logo depois, assumindo o recém-criado Ministério da Educação e da Saúde Pública. Continuou tendo influência na política mineira – notadamente pela criação da Legião de Outubro, por meio da qual buscou minar as bases de seu antigo partido, o PRM. Muito erudito e admirador de pensadores e constitucionalistas antiliberais do exterior em voga, foi um dos principais articuladores da instituição do Estado Novo e, como ministro da Justiça, responsável pela redação da Constituição de 1937. No final do regime varguista, tornou-se crítico do regime e participou da conspiração que levaria à queda de Getúlio Vargas. Quase 20 anos depois, teria ainda participação na arquitetura institucional do regime de 1964, redigindo o Ato Institucional n.2.

Uma rápida olhada na trajetória de “Chico Ciência”, como era apelidado, deixa entrever aparentes contradições: com uma origem política ligada ao poder oligárquico mineiro, foi um dos principais ideólogos do regime que buscou sufocar o poder das oligarquias estaduais. Reformador do ensino inspirado nos princípios da Escola Nova, foi o responsável pelo fechamento da Universidade do Distrito Federal, criada por Anísio Teixeira, às vésperas da instituição do Estado Novo. Ideólogo do Estado Novo, conspirou pela sua derrubada quando o tempo dos regimes autoritários e totalitários parecia se esgotar.

Talvez o sentido dessas aparentes contradições fique mais claro se procurarmos apreender a racionalidade política de Francisco Campos a partir de uma característica de sua trajetória política e intelectual: o fato de ter sido construída no trânsito, e no entrecruzamento, entre três esferas de poder e influência – a local (mineira), a nacional e a internacional.  O objetivo da pesquisa será analisar aspectos do pensamento e da ação política de Francisco Campos à luz dessa característica.

Uma Minas mundo negra

Flávio dos Santos Gomes e Lilia Moritz Schwarcz

Uma Minas mundo negra

Este projeto pretende explorar uma hipótese em dois tempos: nos tempos da escravidão e nos tempos do pós-abolição. A hipótese é que, durante muito tempo, Minas tornou sua população negra invisível, como se fosse uma província e depois um estado basicamente “branco”. Ou melhor, não é correto dizer que Minas produziu uma representação branca, mas ela era, com certeza, “não negra”. Minas não era negra como a Bahia e o Nordeste, mas também não era branca como o Sul e o Sudeste da imigração europeia. Ao que tudo indica, em Minas aproveitou-se do crescimento da representação de uma “Bahia negra”. Paradoxalmente, a África no Brasil estaria demograficamente mais concentrada na Província das Minas Gerais, pelo menos durante os séculos XVIII e XIX. As paisagens mineiras da segunda metade do XVIII ficariam marcadas pelas grandes imigrações da década de 1740 a 1770, quando entram maciçamente africanos centrais e, pós 1769, do Sul de Angola. Esses dois grupos africanos, e as primeiras gerações de crioulos, filhos desses primeiros imigrantes já nascidos no Brasil, protagonizariam várias revoltas –1720, 1723, 1756 e 1790 – cujos planos foram descobertos, justamente, por conta das tensões entre grupos Minas, da África Setentrional, e Angolas, da África Central. Com a abertura de novas fronteiras econômicas de produção de alimentos e depois a entrada do café, percebe-se, já no século XIX, grande presença africana, inclusive advindas das regiões Orientais – os chamados Moçambiques. Enfim, a essas alturas, demograficamente falando, Minas era tanto ou mais africana que a Bahia, mas permaneceu descolorida nos imaginários nacionais do século XIX e do pós-abolição.
Essa população estaria presente nas fotografias de dois profissionais mineiros. Nos referimos a Chichico Alckmin (Diamantina, 1886-1978) e Assis Horta (Diamantina, 1918 – Belo Horizonte, 2018). Horta imortalizou o patrimônio arquitetônico e a sociedade de Diamantina. Mas sua carreira ganhou outro destino em 1943, com a consolidação das Leis do Trabalho. Ao tornar obrigatória a carteira profissional, com a foto 3X4, a medida teve como consequência levar a classe trabalhadora para dentro do estúdio fotográfico. Já Alckmin, fotografou indivíduos, grupos animados, todos negros, muitos bem apresentados com seus vestidos armados, ternos bem cortados e sapatos lustrados. Mais do que interioranos, eles se mostravam como cosmopolitas e conectados com outras elites negras. Esse processo de invisibilidade e visibilidade das populações negras mineiras é, pois, texto e pretexto desse projeto a quatro mãos.

Sociologia mineira e sua aposta na empiria

Celi Scalon, André Junqueira Caetano e Fernando Tavares Jr.

Sociologia mineira e sua aposta na empiria

Tanto sertaneja quanto cosmopolita, Minas se constituiu em entreposto de uma nação que se formava, com culturas migrantes de diferentes cantos de um país continental, integrando ciclos agrícolas, mineradores, industriais, comerciais, intelectuais e culturais. Assim foi também na sociologia. Para a sociologia das desigualdades e estratificação no Brasil, muito se desenvolveu nas, a partir das e com as Gerais. Se suas serras alterosas revelam contrastes, suas formações e transformações sociais os refletem. Um eixo relevante nessa formação é a contribuição da produção sociológica mineira para o desenvolvimento do diálogo de ensaios e teses acerca da formação do Brasil com uma nova pesquisa com raízes empíricas e largo uso de métodos quantitativos. A reflexão sobre o Brasil ganhava números, amparos estatísticos, dados robustos e um vasto lastro na observação de cotidianos contrastantes em larga escala. Devemos a Minas Gerais uma significativa contribuição para o desenvolvimento de pesquisas de surveys; investigações comparativas; modelos com inferência regional, nacional e internacional; ciências sociais aplicadas e a abertura do cenário brasileiro a novos métodos, técnicas e instrumentos empíricos.

Nesse diálogo, observa-se também o traço do cosmopolitismo mineiro ao se constatar que, ontologicamente, Minas revela-se como um resumo do Brasil e o Brasil se encontra, ou se redescobre, em Minas. Minas sempre acolheu grupos e fluxos migratórios de diferentes regiões, também por ocupar posição geográfica, política e econômica que tangia tais movimentos: do Nordeste ao Sudeste, da antiga capital à nova, da “República do café com leite” à “Nova República”. As múltiplas regiões de Minas refletem características de suas fronteiras. O Sul de Minas assemelha-se a São Paulo. O Norte, ao Nordeste do país. O Triângulo lembra o Centro-Oeste e o Sertão reflete a nova fronteira agrícola. Contrastes também em suas cidades, com centros densamente forjados, como a capital; muitas áreas rurais e pouco povoadas; além de várias importantes cidades de médio porte, que operam como “capitais regionais”. Somam-se desigualdades econômicas e sociais profundas, como o pobre Vale do Jequitinhonha, com indicadores entre os menos desenvolvidos do país, à afluência econômica agrícola do Triângulo, além de outras tantas cidades e microrregiões que estão entre aquelas com maior IDH do país. Estudar e compreender Minas Gerais permite vislumbrar sinteticamente processos em curso no conjunto do país, como migrações, diminuição/elevação de desigualdades, entre outros com relevância para políticas públicas.

Esse traço revela características da sociologia desenvolvida nesses contextos, baseada na mobilização de suporte empírico para, junto das tradições do pensamento social, desenvolver uma sociologia aplicada com relevância e destaque internacional. Assim ocorreu em áreas de pesquisa como violência, avaliação e gestão da educação, ciência política e pesquisas eleitorais, além da sociologia e economia rurais. Alguns dos mais importantes centros de pesquisa social no Brasil nasceram assim e se tornaram referência para o diálogo com a sociologia no mundo, como o CEDEPLAR, o CAEd, o CRISP, além dos centros e departamentos em Viçosa e Lavras, dedicados à sociologia rural, e outros núcleos que se internacionalizaram como porta-vozes de uma reflexão nacional, feita a partir de larga empiria e profundo conhecimento local.

A partir dessa reflexão, apresentamos duas propostas:

1) Análise quantitativa de dados socioeconômicos, populacionais e de comportamento político, que demonstrem como os resultados obtidos para o estado de Minas Gerais refletem aqueles esperados para o país, indicando, assim, que Minas Gerais pode ser vista como uma “proxy” do Brasil. Neste caso, propomos focar em alguns tópicos relativos à área de estratificação e desigualdades, como educação, padrão de vida, juventude, além de comportamento político. Para tanto, serão utilizados modelos estatísticos.

2) Pesquisa qualitativa com um grupo de sociólogos mineiros que tiveram formação nos EUA e foram responsáveis pela “sociologia empírica” – uma marca da sociologia praticada em Minas –, e que, ao migrarem para diversos estados, consolidaram um fazer sociológico em todo o país. Alguns nomes considerados neste momento são: Simon Schwartzman, Olavo Brasil de Lima Junior, Renato Boschi, Elisa Reis, Bolívar Lamounier e Vilmar Faria. Contemplaremos também a criação do Curso de Métodos Quantitativos, que se estabelece na UFMG sob a liderança de Neuma Aguiar e de dois sociólogos de outra geração que vieram do Recife para a UFMG: Daniele Cireno e Jorge Alexandre. A metodologia adotada será de entrevistas em profundidade diretamente com os pesquisadores citados. Para acessar informações sobre Vilmar Faria e Olavo Brasil de Lima Júnior, propomos entrevistar Fernando Henrique Cardoso e Renato Boschi, respectivamente. Os nomes não se esgotam nos apontados aqui, uma vez que a técnica de snowball permite que novos atores surjam no decorrer das entrevistas.

Cosmopolitismo e gênero: mulheres mineiras na primeira metade do século XX

Mariana Chaguri e Fabio Querido

Cosmopolitismo e gênero: mulheres mineiras na primeira metade do século XX

Para contribuir com o projeto Minas Mundo, esta proposta recorta a participação de algumas mulheres mineiras na política e na cultura entre as décadas de 1920-1950. A ênfase estará, sobretudo, nas trajetórias e na produção intelectual, inicialmente, de três mulheres:
Elvira Komel e sua atuação na Legião Feminina Mineira, voltada sobretudo para as demandas acerca do sufrágio feminino e da participação de mulheres na vida pública; e no Batalhão Feminino João Pessoa, dedicado ao apoio ao movimento militar na base na Revolução de 1930. Nesse ponto, espera-se observar como dois movimentos de mulheres atuaram e ajudaram a configurar aspectos específicos do debate sobre o liberalismo político e os direitos civis nas primeiras décadas do século XX.
Eunice Vivacqua, cuja família promoveu e abrigou em sua casa aquilo que ficou conhecido como “Salão Vivacqua”, reunindo intelectuais e políticos durante as décadas de 1920 e 1930. Eunice escreveu Salão Vivacqua: lembrar para lembrar, livro de memórias sobre os salões e sobre a família que ajudam a desenvolver algumas das questões colocadas pelo projeto, em especial, quais os sentidos e significados assumidos pela imagem e função da “tradicional família mineira” quando rememoradas ou recontadas a partir da memória e da escrita de suas filhas.
Helena Morley, com foco especial na leitura feita por Roberto Schwarz em Duas Meninas, procurando ler o código patriarcal tensionando localismo, cosmopolitismo e gênero.
De modo preliminar, sugere-se aqui que existem muitas formas de se participar de um tempo, o que no caso da escrita e da produção das ideias implica em desestabilizar noções comumente assentadas sobre as imbricações entre autor, texto e contexto. Desse modo, aponta-se aqui que os temas ou as categorias acionadas para tratá-los, tais como família, patriarcalismo, localismo ou cosmopolitismo, possuem significados que dependem das contingências, das controvérsias e das experiências – individuais e coletivas.

Um mundo à deriva: a história e a memória das classes médias brasileiras na literatura de Luiz Ruffato

Enio Passiani

Um mundo à deriva: a história e a memória das classes médias brasileiras na literatura de Luiz Ruffato

Tratar das classes sociais, principalmente a partir da perspectiva das classes médias baixas, não é novidade em relação à literatura de Ruffato, uma vez que o tema já foi apontado por vários críticos e assumido pelo próprio autor em artigos de jornal e entrevistas como uma espécie de coluna que sustenta todo o seu projeto intelectual. O centro de suas preocupações é o homem comum e trabalhador, aspecto pouco comum em nossa história literária, frequente e majoritariamente composta por autores/as das classes médias mais abastadas que se dirigem a essas mesmas classes.

Nascido em Cataguases, MG, ele próprio oriundo das classes médias baixas, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira de roupas, Ruffato foi operário da indústria têxtil, pipoqueiro como o pai e atendente de armarinho na juventude. Ao fazer ficção de “baixo para cima”, opera um duplo movimento, que é um duplo questionamento: coloca em xeque a ideia de nação em nosso país, assim como a própria literatura brasileira, que silenciou a respeito de tal estrato social.

Desde sua pentalogia, Inferno provisório, até o seu último romance, Verão tardio, Ruffato debruça-se sobre uma camada social que, historicamente, vem se desintegrando, esmaecendo a ponto de tornar-se uma espécie de imagem fantasmática sem corpo e que se esforça, quase sempre sem sucesso, para se recompor e voltar a existir. Em sua pentalogia, as personagens, entre familiares e vizinhos, abandonam Cataguases para tentar a vida noutras cidades, como Juiz de Fora, Rio de Janeiro e São Paulo. Em Verão tardio deparamo-nos com o movimento de retorno da personagem principal para a mesma Cataguases, num reencontro absolutamente desastroso com sua família.

Espremidas entre as condições materiais de vida quase sempre precárias, exploradas por relações de trabalho profundamente desiguais, sonhos e ambições destruídos e relações familiares catastróficas, as personagens frequentemente rememoram o passado, conversam consigo mesmas na esperança de tentar encontrar e compreender o momento em que tudo começou a desandar. O passado irrompe no presente a todo momento, ora como tentativa de reviver o momento em que as esperanças em relação ao futuro ainda eram vivas e vibrantes, ora como âncora que arrasta e congela o presente no pretérito, impedindo o tempo de avançar.

É desde Cataguases que Ruffato procura problematizar a história e o destino das camadas médias baixas brasileiras, apresentando-se como uma das expressões literárias mais bem acabadas dos “de baixo”, de tal sorte que a literatura de Ruffato preenche um vazio que afeta tanto a literatura nacional quanto o pensamento social brasileiro, que ainda apresenta parca produção a respeito das nossas classes médias. Sua literatura, sem dúvida, ajuda a pensar e problematizar o Brasil.

Coleção de cacos: objetos biográficos na literatura mineira

Eneida Maria de Souza

Coleção de cacos: objetos biográficos na literatura mineira

A proposta em pauta está centrada na abordagem das narrativas literárias mineiras com enfoque na análise do sistema de objetos que possibilitam a relação entre tradição e modernidade, conduzindo ao debate sobre o cosmopolitismo. Com a utilização do objeto como elemento mediador para a construção de redes interpretativas que contemplam formas específicas de subjetivação individual e coletiva, pretende-se descartar a oposição entre sujeito e objeto, com vistas à produção de imagens da vida cotidiana e suas relíquias futuras. A fabulação de histórias no âmbito da literatura mineira do século 20, com particular enfoque no período modernista e pós-modernista, prioriza autores que dramatizam o sentimento de instabilidade e de permanente sensação de desterro na própria terra. O olhar cosmopolita concentra-se nessa encruzilhada entre paisagem arcaica e urbana, local e global, a partir do deslocamento constante dos lugares de origem e na tentativa de alcançar espaços heterogêneos que redefinem singularidades. A tradição cultural mineira, pautada pelo passado escravocrata e a herança europeia, guardou do passado resquícios e costumes compatíveis com o sentimento de renovação e superação dos sonhos de futuro.

1. Guardar e colecionar objetos e documentos pertencentes à saga familiar são atitudes próprias à sociedade burguesa e patriarcal, nas quais o apego à memória dos objetos confere ao seu possuidor o sentido de pertencimento a uma classe, um lugar e um clã, condições capazes de integrá-lo à sociedade. As Memórias de Pedro Nava são exemplos dessa prática. Os objetos, destituídos do valor de uso, passam a assumir o estatuto de valor biográfico, mágico e aurático. O culto ao objeto como relíquia de família representa o desejo de alinhamento ao passado e a preservação de valores patriarcais. 2. A proposta poética de Guimarães Rosa como escritor brasileiro foge da pecha de regionalista e se liberta dos modelos estrangeiros como matriz de influências. Redefine a defasagem entre cidade e província, com o processo de modernização e a presença de objetos que marcam esse conflito e as mudanças, como o rádio, pelo contato com as narrativas da cidade; a venda do pai, em Cordisburgo, celeiro de histórias dos fregueses, as quais mais tarde serão lembradas e reconstruídas pelo filho-escritor, entre outros inúmeros objetos. 3. Em Autran Dourado, as quixotescas e bovarianas leitoras de romances de folhetim ou de poemas patrióticos mantêm um terrível pacto com a solidão, o abandono e o fracasso. O retrato da sociedade patriarcal brasileira é delineado sob o signo da decadência e do término da imagem utópica das Minas Gerais, enriquecida com o brilho e a opulência do ouro. A canastra da personagem Biela, símbolo de sua vida humilde e simples do sertão mineiro (Uma vida em segredo) e a descrição do sobrado barroco de Rosalina, resquício da opulência do ouro nas Minas Gerais (Ópera dos mortos), constituem imagens significativas para a compreensão desse trágico cenário barroco e decadente.

Henriqueta Lisboa: trazer o mundo para casa

Elide Rugai Bastos

Henriqueta Lisboa: trazer o mundo para casa

Henriqueta Lisboa tem despertado nos últimos anos justificado interesse entre os estudiosos de literatura. Esse interesse se deve à importância de sua obra, mas também a sua fina e precoce percepção, acompanhada do questionamento, dos limites sociais impostos à mulher na sociedade brasileira Na área de sociologia, porém, embora tenham crescido as pesquisas sobre gênero e/ou movimentos feministas, seu nome é pouco citado. O abandono de algumas figuras fundamentais na reconstrução do processo social que ilumina o presente indica esquecimento do peso que constrangimentos estruturais, condicionamentos históricos e mesmo escolhas do passado têm sobre a ação. Afinal, a história não é apenas o cenário em que se desenrolam os acontecimentos, mas componente estrutural da análise sociológica.

Nesta pesquisa pretendo mostrar que em linguagem simultaneamente coloquial e sofisticada Henriqueta Lisboa explicita nas situações cotidianas aqueles constrangimentos, condicionamentos e escolhas; ultrapassa, assim, as fronteiras locais e traz o mundo para casa. E o faz não apenas por meio de sua requintada poesia, mas via ensaios e traduções, nas quais mostra como sua leitura dos autores universais “vem de dentro”, encontrando soluções engenhosas para as dificuldades da escritura de Dante, Ungaretti, Pavese (magnífico!), Lope de Vega ou Gabriela Mistral.

Confesso ter clareza da amplitude de meu objetivo e das dificuldades de alcançá-lo em suas várias facetas. Mas o próprio caminho da pesquisa irá colocando pedras que poderão ou não ser contornadas. Assim, vários impasses de caráter metodológico precisam ser superados ao longo da investigação. A leitura da obra de Henriqueta Lisboa é um primeiro passo para equacionar esse problema. O caminho nessa direção é amplo, compreendendo poesia, ensaios, traduções, correspondência e a reflexão da autora sobre seu próprio trabalho. Os passos seguintes se dão na consulta de uma bibliografia analítica sobre persona e obra, aliás, muito importante; consulta de arquivos documentais; entrevistas com especialistas na obra, entre outros. Só essa visão mais geral permitirá direcionar concretamente as indagações que levanto.

Minas e o mundo de Guignard

Eduardo Dimitrov

Minas e o mundo de Guignard

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é conhecido por suas “paisagens imaginantes”, compostas por igrejas barrocas, balões de São João, montanhas de Minas Gerais. Frequentemente, essas telas geram, nos críticos, associações que vão do patrimônio histórico à atmosfera onírica e surrealista. Intimamente vinculados à construção da paisagem como um componente do patrimônio de Minas Gerais, os quadros de Guignard confundem-se com Minas – não seria exagero pensar que imaginamos as cidades históricas também por meio desse acervo visual.

Debruçar-se sobre a obra e a trajetória do pintor pode iluminar aspectos do cosmopolitismo mineiro. O friburguense Guignard teve uma formação cosmopolita. Formou-se pintor frequentando a Real Academia de Belas Artes de Munique. Passou por Florença e Paris, onde participou do Salão de Outono. Ao retornar ao Brasil em 1929, inseriu-se no cenário artístico carioca recebendo algum reconhecimento ao participar do Salão Revolucionário de 1931. Aproximou-se de Oscar Niemeyer e Aníbal Machado ao integrar a Comissão Organizadora da Divisão de Arte Moderna do Salão Nacional de Belas Artes. Em 1944, a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, transferiu-se para Belo Horizonte e passou a lecionar e dirigir o curso livre de desenho e pintura da Escola de Belas Artes, por onde, mais tarde, passaram Amílcar de Castro, Farnese de Andrade e Lygia Clark.

Guignard manteve-se inserido na rede de intelectuais que pensavam e implementavam o projeto modernista no Brasil. Sua produção, ao mesmo tempo que importava e mobilizava formas expressivas apreendidas na Alemanha, França e Itália, também respondia às diretrizes de um projeto elaborado pela elite nacional em diversas frentes – patrimônio histórico, instauração de novos valores estéticos, modernização das instituições de ensino de artes plásticas etc.

No âmbito do projeto Minas mundo: cosmopolitismo na cultura brasileira, cabe investigar a obra e a trajetória de Guignard para compreender a maneira como o artista mobilizou criativamente suas referências europeias nas respostas às diferentes diretrizes modernistas. Interessa investigar a construção de paisagens culturais, associando patrimônio histórico colonial a certa “cultura popular” na elaboração de um imaginário não só de paisagens representativas da nação, mas também de um “povo”, que atendesse ao projeto nacional modernista.

A voz lírica em Juiz de Fora: entre a natureza e o asfalto

Eduardo Coelho

A voz lírica em Juiz de Fora: entre a natureza e o asfalto

Juiz de Fora: poema lírico, de Austen Amaro, foi publicado em 1926, com ilustrações de Pedro Nava, tornando-se o primeiro livro do modernismo mineiro. Nessa obra, manifesta-se o caráter “primitivo” da realidade brasileira, com suas paisagens formadas de “avencas”, “jenipapeiros” e “bananeiras”, entre outros índices da natureza que se misturam à vida moderna, industrial, composta de “sirenes”, “fábricas”, “operários” e “chaminés”. No poema “Ex-libris” desse volume, o sujeito declara: “Eu canto a poesia da bigorna/ com a rigidez enérgica do bíceps!”, de modo a compor, mediante a energia do corpo, uma poética que se lança subjetivamente ao “asfalto que ressoa ao trepidar cosmopolita do capitalismo” em meio a uma “terra generosa”. Pretende-se analisar como a voz “lírica”, evocada já no subtítulo, participa da construção da cena que compreende, ao mesmo tempo, a singularidade local e o cosmopolitismo capitalista.

Modernismo, extrativismo e melancolia

Denilson Lopes

Modernismo, extrativismo e melancolia

A partir de uma perspectiva genealógica, nossa hipótese é que é possível ter como chave de leitura não só obras isoladas, mas uma constelação, um “outro Modernismo” marcado pela catástrofe ao invés da utopia; pela melancolia ao invés da alegria; pela sensação de fim do mundo ou de um mundo ao invés da inauguração de uma nova era; pelo fascínio pela lentidão que advém depois do fim e de paisagens devastadas, solitárias em detrimento da velocidade e da hipersensorialidade celebrada em grande parte do modernismo identificado com o ritmo da grande cidade. Essa genealogia foi em grande parte apagada ou tornada secundária na história do modernismo mais estudada em São Paulo, a partir dos desdobramentos da Semana de 1922; da renovação do regionalismo a partir de Pernambuco. Esse outro modernismo, nos termos de Paulo Venancio, será compreendido a partir da obra de Cornélio Penna, em especial, A menina morta (1954), de Lúcio Cardoso, em especial, Crônica da Casa Assassinada (1958) e seus desdobramentos nas artes visuais (Goeldi, Farnese de Andrade), e sobretudo no cinema, com certos filmes de Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Davi Neves, estabelecendo uma relação entre esse modernismo e o Cinema Novo distinta da escolha estratégica de Humberto Mauro por Glauber Rocha.

Trata-se da linhagem de uma sensibilidade social, marcada por um longo tempo de decadência, entre o fim do ciclo do ouro e do diamante em Minas Gerais a partir do século XIX, e a crise da cafeicultura no vale do Paraíba, entre o fim do Segundo Império e a crise de 1929. A partir da experiência de uma modernidade rural, dialogando com expressão de Ericka Beckman, trata-se de repensar as tensões entre provincianismo e cosmopolitismo por meio de uma leitura comparativa entre cinema, literatura e artes visuais. O trânsito em obras de diferentes linguagens se traduz numa leitura intertextual, intersemiótica e intermediática em vez de apenas de trabalhos estritamente monográficos sobre artistas ou inseridos dentro de uma linguagem artística específica e de seu campo artístico. Não se trata aqui de buscar adaptações reificando as relações de fonte, origem e obra adaptada, secundária, mas de produzir fricções entre os trabalhos, para que se possa compreender o modernismo para além dos limites de uma linguagem, embora se reconheça a centralidade da literatura para a formação dos artistas e dos debates intelectuais.

Cineastas mineiros (1968-1970): trajetórias políticas, geográficas e culturais

Daniela Giovana Siqueira

Cineastas mineiros (1968-1970): trajetórias políticas, geográficas e culturais

A virada 1968/1970 marca a produção de uma safra de filmes realizados por jovens diretores nascidos em Minas Gerais, que, longe de defenderem uma mineiridade mítica, realizam obras que fixam a paisagem mineira como lugar essencial para se pensar o Brasil daquele período. Essa escolha geográfica se faz em contraponto a um gesto migratório, que afetou boa parte de uma geração que, possuindo uma mesma base de formação (cineclubismo e crítica cinematográfica conformada em Belo Horizonte), foi morar no Rio de Janeiro no início da década de 1960. Lá escrevem seus roteiros e, cada qual a sua maneira, retornam ao solo natal. Esta proposta tem por interesse investigar dois desses realizadores, Maurício Gomes Leite com o filme A vida provisória (1968) e Carlos Alberto Prates Correia, com Crioulo doido (1970), sendo ambas as primeiras experiências dos diretores à frente do longa-metragem. Tal fato potencializa a discussão sobre o fazer e o pensar cinema, a partir de uma cena de origem, o Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC), que notabilizou a sociabilidade cineclubista enquanto sociedade intelectual, sobretudo nas décadas de 1950 e 1960. Ele constitui exemplo que, sob uma perspectiva historiográfica, amplia possibilidades que tensionam o jogo provincianismo/cosmopolitismo.

O perfil dos diretores escolhidos desdobra outras camadas sobre o fenômeno de produção. Trata-se de jovens realizadores de cinema, inseridos, portanto, em uma vanguarda central no mundo na década de 1960, vivendo, porém, em um país periférico, realidade que por si só aponta para o polo dicotômico local/universal. Sobre essa base de pensamento, a sobrevivência no tempo dos dois filmes aqui destacados, reverbera ainda outra questão sobre a relação província/centro, desta vez em âmbito nacional: o corpus é constituído por títulos não canônicos, praticamente ignorados pelos estudos de cinema feitos em seu próprio país de realização.

Centradas em Minas Gerais, as obras trazem uma pauta nacional, permeando questões que definiam discussões de relevância para o período. O diálogo é cosmopolita, mas feito a partir de uma matriz local, de experiências próprias que não afirmam o típico; e, nesse sentido, os filmes configuram um conjunto de imaginários sobre Minas, paisagens, ambiências, tratamentos familiares e sociais que enunciam uma forte vontade cosmopolita. Sabemos que em uma vasta produção literária e também na música popular, com o Clube da Esquina, realizou-se com destaque a premissa: a partir de Minas, o mundo! E no cinema? O que fica do cinema produzido a partir de Minas em uma discussão sobre o modernismo?

Sociologia mineira e sua aposta na empiria

Celi Scalon

Sociologia mineira e sua aposta na empiria

Tanto sertaneja quanto cosmopolita, Minas se constituiu em entreposto de uma nação que se formava, com culturas migrantes de diferentes cantos de um país continental, integrando ciclos agrícolas, mineradores, industriais, comerciais, intelectuais e culturais. Assim foi também na sociologia. Para a sociologia das desigualdades e estratificação no Brasil, muito se desenvolveu nas, a partir das e com as Gerais. Se suas serras alterosas revelam contrastes, suas formações e transformações sociais os refletem. Um eixo relevante nessa formação é a contribuição da produção sociológica mineira para o desenvolvimento do diálogo de ensaios e teses acerca da formação do Brasil com uma nova pesquisa com raízes empíricas e largo uso de métodos quantitativos. A reflexão sobre o Brasil ganhava números, amparos estatísticos, dados robustos e um vasto lastro na observação de cotidianos contrastantes em larga escala. Devemos a Minas Gerais uma significativa contribuição para o desenvolvimento de pesquisas de surveys; investigações comparativas; modelos com inferência regional, nacional e internacional; ciências sociais aplicadas e a abertura do cenário brasileiro a novos métodos, técnicas e instrumentos empíricos.

Nesse diálogo, observa-se também o traço do cosmopolitismo mineiro ao se constatar que, ontologicamente, Minas revela-se como um resumo do Brasil e o Brasil se encontra, ou se redescobre, em Minas. Minas sempre acolheu grupos e fluxos migratórios de diferentes regiões, também por ocupar posição geográfica, política e econômica que tangia tais movimentos: do Nordeste ao Sudeste, da antiga capital à nova, da “República do café com leite” à “Nova República”. As múltiplas regiões de Minas refletem características de suas fronteiras. O Sul de Minas assemelha-se a São Paulo. O Norte, ao Nordeste do país. O Triângulo lembra o Centro-Oeste e o Sertão reflete a nova fronteira agrícola. Contrastes também em suas cidades, com centros densamente forjados, como a capital; muitas áreas rurais e pouco povoadas; além de várias importantes cidades de médio porte, que operam como “capitais regionais”. Somam-se desigualdades econômicas e sociais profundas, como o pobre Vale do Jequitinhonha, com indicadores entre os menos desenvolvidos do país, à afluência econômica agrícola do Triângulo, além de outras tantas cidades e microrregiões que estão entre aquelas com maior IDH do país. Estudar e compreender Minas Gerais permite vislumbrar sinteticamente processos em curso no conjunto do país, como migrações, diminuição/elevação de desigualdades, entre outros com relevância para políticas públicas.

Esse traço revela características da sociologia desenvolvida nesses contextos, baseada na mobilização de suporte empírico para, junto das tradições do pensamento social, desenvolver uma sociologia aplicada com relevância e destaque internacional. Assim ocorreu em áreas de pesquisa como violência, avaliação e gestão da educação, ciência política e pesquisas eleitorais, além da sociologia e economia rurais. Alguns dos mais importantes centros de pesquisa social no Brasil nasceram assim e se tornaram referência para o diálogo com a sociologia no mundo, como o CEDEPLAR, o CAEd, o CRISP, além dos centros e departamentos em Viçosa e Lavras, dedicados à sociologia rural, e outros núcleos que se internacionalizaram como porta-vozes de uma reflexão nacional, feita a partir de larga empiria e profundo conhecimento local.

A partir dessa reflexão, apresentamos duas propostas:

1) Análise quantitativa de dados socioeconômicos, populacionais e de comportamento político, que demonstrem como os resultados obtidos para o estado de Minas Gerais refletem aqueles esperados para o país, indicando, assim, que Minas Gerais pode ser vista como uma “proxy” do Brasil. Neste caso, propomos focar em alguns tópicos relativos à área de estratificação e desigualdades, como educação, padrão de vida, juventude, além de comportamento político. Para tanto, serão utilizados modelos estatísticos.

2) Pesquisa qualitativa com um grupo de sociólogos mineiros que tiveram formação nos EUA e foram responsáveis pela “sociologia empírica” – uma marca da sociologia praticada em Minas –, e que, ao migrarem para diversos estados, consolidaram um fazer sociológico em todo o país. Alguns nomes considerados neste momento são: Simon Schwartzman, Olavo Brasil de Lima Junior, Renato Boschi, Elisa Reis, Bolívar Lamounier e Vilmar Faria. Contemplaremos também a criação do Curso de Métodos Quantitativos, que se estabelece na UFMG sob a liderança de Neuma Aguiar e de dois sociólogos de outra geração que vieram do Recife para a UFMG: Daniele Cireno e Jorge Alexandre. A metodologia adotada será de entrevistas em profundidade diretamente com os pesquisadores citados. Para acessar informações sobre Vilmar Faria e Olavo Brasil de Lima Júnior, propomos entrevistar Fernando Henrique Cardoso e Renato Boschi, respectivamente. Os nomes não se esgotam nos apontados aqui, uma vez que a técnica de snowball permite que novos atores surjam no decorrer das entrevistas.

Localismo e cosmopolitismo na memorialística de Afonso Arinos de Melo Franco

Carmen Felgueiras

Localismo e cosmopolitismo na memorialística de Afonso Arinos de Melo Franco

Minha proposta de trabalho para o projeto de pesquisa Minas mundo é investigar como o par conceitual localismo e cosmopolitismo ou seu equivalente particularismo e universalismo aparece na obra de Afonso Arinos de Melo Franco combinando-se, ou excluindo-se, em função de contextos específicos da experiência do narrador, e como cada um dos termos se constitui em perspectiva ou categoria a partir da qual ele observa o mundo e orienta a sua ação. Nesse sentido, a pesquisa utilizará dois corpora narrativos, as memórias e os ensaios. Sua obra memorialística, A alma do tempo, se constitui em objeto privilegiado para a análise do que estou considerando denotativa dos “contextos específicos de uma experiência cosmopolita e/ou provinciana”, como a infância, a viagem, a política, a diplomacia etc. Já a ensaística (O índio brasileiro e a Revolução Francesa: as origens brasileiras da teoria da bondade natural talvez seja o principal ensaio a ser estudado) pode lançar luz sobre como Afonso Arinos se vale dessas categorias para o seu trabalho de interpretação da sociedade brasileira. A principal hipótese do trabalho é a de que as relações de Afonso Arinos com o seu círculo familiar podem dar a chave para o entendimento de uma certa oscilação – entre contraste e afinidade – entre localismo e cosmopolitismo em A alma do tempo. Enquanto suas origens mineiras e brasileiras se aproximam de um ideal de (ou uma idealização da) autenticidade local, a reconstituição de uma tradição familiar a partir de seus ascendentes mais próximos assume um sentido cada vez mais artificial e pragmático na medida de sua associação à cultura europeia. Quanto às formas narrativas, sugere-se que o ensaio seria o meio pelo qual o autor realiza o trânsito entre as reflexões solitárias presentes nas memórias, voltadas para si e para os seus, e uma sociabilidade mais ampla, buscando o diálogo com os contemporâneos e afirmando-se como um intelectual público.

Clube da Esquina: encontros e despedidas nos caminhos da canção popular brasileira

Bruno Viveiros Martins

Clube da Esquina: encontros e despedidas nos caminhos da canção popular brasileira

Esquina é um lugar de encontro. Assim como clube traz a ideia da reciprocidade entre iguais. Contudo, quando perguntados sobre o que é o Clube da Esquina e como ele foi criado, seus integrantes não sabem responder exatamente o que aconteceu de fato. Uma coisa, porém, é certa: a amizade nasceu antes de qualquer uma de suas canções, compostas na grande maioria das vezes nas parcerias entre eles. A mistura de convivência, afeto e enriquecimento mútuo que combate a solidão, visando colocar fim à incompletude humana, é o grande segredo dessa obra coletiva de faces múltiplas e rara riqueza musical criada entre os anos de 1960 e 1970. Milton Nascimento, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta, Lô Borges, Beto Guedes, Tavinho Moura, Nelson Ângelo, Flávio Venturini foram alguns dos sócios desse clube imaginário que reuniu em seus caminhos referências musicais consideradas até então inconciliáveis. Desde que se encontraram nas esquinas de Belo Horizonte, os compositores expandiram suas conexões com os sons da América Hispânica e com as tradições ancestrais do interior mineiro, das manifestações da África negra presentes nos congados e folias de reis ao catolicismo festeiro e popular; além de recorrer às novas possibilidades rítmicas inauguradas pela Bossa Nova. Em seus discos, eles transitavam também pelas linguagens mais modernas do jazz e do rock em circulação pelas cidades do ocidente, assim como por outras narrativas artísticas como o cinema, teatro, dança e literatura. O cosmopolitismo presente em LPs como Clube da Esquina, de 1972, e Clube da Esquina II, de 1978, teria inaugurado a World Music, muito antes do termo ser popularizado nos anos seguintes. Ao longo de sua trajetória, a voz enigmática de Milton Nascimento congregou em torno de sua figura todos esses amigos que viriam a ser seus parceiros musicais. Vindos das diferentes regiões de Minas Gerais, a maioria dos integrantes do Clube da Esquina não carregou consigo apenas influências culturais díspares, mas também histórias de vida e visões de mundo singulares. Cada um dos compositores trouxe, através de referências pessoais, também um pouco do seu lugar de origem. Eles, no entanto, nunca perderam de vista os caminhos que levaram o Clube da Esquina a ultrapassar as fronteiras entre os sonhos e os sons.

Betinho: do quarto para o mundo

Bernardo Ricupero

Betinho: do quarto para o mundo

Entre os quinze e os dezoito anos, Herbert de Sousa, o Betinho, morou num quarto, afastado da família. Hemofílico, contraiu tuberculose, mas os pais preferiram não interná-lo num sanatório. No quarto, leu furiosamente, fez aeromodelismo, fotografia etc. Curado da moléstia nos pulmões, cursou madureza e ingressou, em 1958, no curso de Sociologia na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O mundo se transformava então, a Revolução Cubana capturando a imaginação de jovens pela América Latina. Uma instituição secular como a Igreja Católica não ficou inerte, convocando o Concílio do Vaticano II.

Betinho era então militante da Juventude Universitária Católica (JUC) que, em aliança com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), passa a controlar a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o movimento estudantil. No agitado início da década de 1960, o protagonismo da UNE é cada vez maior, tendo papel decisivo na campanha pelas Reformas de Base. Inevitavelmente, os jovens católicos entram em choque com a cúpula da Igreja, o que abre caminho para a fundação da Ação Popular (AP), organização da qual o mineiro de Bocaiúva é o primeiro coordenador nacional.

O golpe de 1964 leva Betinho a seu primeiro exílio. Como boa parte da cúpula do regime deposto, parte para o Uruguai. Logo, porém, retorna clandestino ao Brasil. No entretempo, a radicalização da AP se aprofunda, os jovens católicos convertendo-se ao maoísmo. Nosso herói, apesar de hemofílico, se “proletariza”, indo trabalhar numa fábrica de porcelanas em Mauá. Com o acirramento da repressão, se exila no Chile, onde se torna assessor do presidente de Salvador Allende. Um novo golpe leva-o, brevemente, ao Panamá e ao Canadá. Em Toronto, funda a Latin American Research Unit (LARU), centro de pesquisa sobre a América Latina.

Junto com a Abertura, ganha força a campanha pela Anistia, quando o Brasil “sonha com a volta do irmão do Henfil”. Betinho, como tantos exilados, retorna, finalmente, em 1979. No país, funda o Instituto Brasileiro de Análise e Planejamento (IBASE), organização que assessora movimentos sociais. A partir do IBASE, lança inúmeras campanhas como a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Cidadania, a chamada Campanha contra a Fome, que sensibiliza boa parte da sociedade. A última delas é em defesa dos infectados por AIDS, doença que o leva em 1997.

A trajetória militante de Betinho se confunde com as grandes questões do Brasil e do mundo na segunda metade do século XX. Hemofílico e oriundo de uma família da pequena-burguesia mineira, a maneira que encontra ânimo para sobreviver é abraçando um profundo messianismo. Inicialmente católico, depois maoísta, talvez tenha se convertido, finalmente, no que se poderia chamar estranhamente de um messianismo laico. Foi, de qualquer forma, a fome pelo mundo com a qual saiu do quarto aos dezoitos anos e encontrou satisfação respectivamente no catolicismo, na militância revolucionária, no trabalho que antecipa as organizações não governamentais (ongs), que marcou Betinho.

O mundo que engole o mundo: a escrita visual de Sebastião Salgado

Beatriz Malcher

O mundo que engole o mundo: a escrita visual de Sebastião Salgado

Sebastião Salgado nasce em 1944 em Aimorés, no vale do rio Doce. Ainda jovem, parte em direção à Vitória, onde estuda economia, e de lá em direção a São Paulo, obtendo seu título de mestre em economia pela USP. Fugindo da ditadura civil-militar, Salgado vai para a Europa em 1968 e se emprega no Banco Mundial, por meio do qual faz muitas viagens ao continente africano – onde tem o seu primeiro contato com a fotografia. Em 1973 decide se dedicar exclusivamente ao que chama de “reportagem fotográfica”. Ao longo de trinta anos circula nos mais diferentes cantos habitados do globo registrando realidades e modos de existência que expõem as antíteses das grandes promessas de progresso de nosso tempo.

De Minas para o Mundo, o fotógrafo parece repensar os processos históricos em curso a partir das margens; registrar os vencidos da história, ou uma história vista de baixo. O ponto de chegada desse percurso acontece entre 1993 e 1999 em seu projeto mais polêmico: Êxodos (2000). No entanto, a experiência desse ensaio tornou o registro de um mundo que devora o mundo impossível para ele. Diante da dor dos outros, o artista emudece. Sua voz, porém, é reencontrada em Aimorés. O ciclo se fecha: tendo saído de Minas em busca do mundo, é de volta a Minas que o fotógrafo consegue encontrá-lo. A partir do reflorestamento da fazenda de seu pai, Salgado compreende o absurdo da separabilidade entre humanidade e natureza, e dali em diante sua fotografia nunca mais será a mesma. O trabalho que faz nos anos que seguem tem como resultado o ensaio Gênesis (2013). Contra o mundo técnico e o tempo do progresso que leva à catástrofe, a nova fotografia de Salgado encontra uma outra temporalidade – dentro do século XXI, um tempo fora do tempo.

Levando em conta esse percurso, minha pesquisa propõe uma reflexão sobre a escrita da história através das imagens de Sebastião Salgado. Para tal, proponho estudar a fotografia de Salgado menos como uma reportagem visual e mais como uma fotografia de caráter narrativo, desenvolvendo uma leitura interna dessas imagens para a compreensão do modo pelo qual as questões sociais e ambientais são internalizadas na fotografia. A partir dessa leitura interna será possível entender a narrativa histórica composta por essas imagens levando em conta tanto os ensaios fotográficos em sua individualidade, quanto no conjunto de sua obra.

Cosmopolitismo e ciências sociais em Minas Gerais

Antonio Brasil Jr.

Cosmopolitismo e ciências sociais em Minas Gerais

Em larga medida, a emergência das ciências sociais no país, pelo menos enquanto empreendimento acadêmico organizado nos modernos moldes universitários, foi um típico experimento cosmopolita. Jovens (e alguns não tão jovens) professores europeus e norte-americanos, em estadias de curta, média ou mesmo de longa duração, foram decisivos para a implantação dos códigos (cognitivos, institucionais e sociais) associados ao empreendimento científico; do mesmo modo, os cientistas sociais formados no país conheceram formas de mobilidade internacional de diferentes tipos e intensidades, fazendo parte dos novos canais transnacionais de organização do debate científico. O caso de Minas Gerais, ao menos quando comparado com os outros mais estudados e tomados como paradigmáticos – os de Rio e de São Paulo –, é interessante porque sugere outros sentidos para esse experimento cosmopolita. Chamam a atenção especialmente os seguintes pontos: 1. a precocidade da moderna editoração científica, com a Revista Brasileira de Estudos Políticos, editada por Orlando Carvalho, e a Revista Brasileira de Ciências Sociais, promovida por Júlio Barbosa; 2. a interação entre certas disciplinas, como economia, administração e direito na grade do curso de bacharelado em Sociologia e Política, mantido pela Faculdade de Ciências Econômicas (FACE) da UFMG, discrepando dos outros cursos de ciências sociais então existentes; 3. a intensa conexão com os circuitos latino-americanos das ciências sociais, seja na formação de um programa de pesquisa em sociologia política – em forte diálogo com o grupo de Gino Germani na Universidade de Buenos Aires –, seja especialmente na formação pós-graduada na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) em Santiago do Chile, decisiva para toda uma geração de cientistas sociais mineiros que remodelou a sociologia e a ciência política até então existentes no Brasil. Em particular, interessa investigar aqui em maior detalhe a relação dessa geração de mineiros com os experts da Unesco Johan Galtung (norueguês) e Peter Heintz (suíço), que propuseram uma notável combinação de formação rigorosa em métodos e técnicas quantitativas de pesquisa e uma sociologia crítica e radical.

O prodígio da originalidade

Angelo Oswaldo de Araújo

O prodígio da originalidade

O escultor, entalhador e arquiteto Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1738-1814), nasceu e morreu em Vila Rica (Ouro Preto), tendo deixado uma obra de largo reconhecimento, como atesta o título de patrimônio da humanidade conferido pela Unesco à cidade de Ouro Preto e ao conjunto do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. O que particulariza o legado do Aleijadinho, por sobre a qualidade extraordinária da incisão escultórica e do risco dos edifícios, é a originalidade conquistada a partir da soma de variada contribuição de estilos e das condicionantes do tempo e do meio em que viveu.

Filho de uma africana escrava, formou-se junto ao pai, o arquiteto, mestre carapina e construtor português Manuel Francisco Lisboa, recebendo lições de outros destacados autores vindos de Portugal, como Coelho de Noronha e Xavier de Brito. Seu estilo evoluiu do barroco para o rococó vigente na segunda metade do século XVIII, mas nada o deteve na busca de uma identidade própria, que naturalmente emergiu como resultante de sua capacidade de ir além de normas ou cânones. O historiador da arte francês Germain Bazin disse que Deus apareceu pela última vez na arte do Ocidente por meio da obra do Aleijadinho. O impacto que ela causou no poeta ainda simbolista Mário de Andrade, ao visitar as cidades históricas mineiras, em 1919, resultou numa das principais metas do modernismo da década de 1920: a busca da identidade brasileira e a emancipação do artista nacional no quadro do internacionalismo dominado pela produção europeia e norte-americana. Os modernistas de São Paulo consideraram o Aleijadinho como sendo o primeiro artista genuinamente brasileiro, exatamente pelo domínio subversivo que exerceu sobre modelos, padrões e estilemas impostos pela metrópole ao império colonial.

O Belo como Horizonte: moda & antimoda como imagem do cosmopolitismo

Angélica Oliveira Adverse

O Belo como Horizonte: moda & antimoda como imagem do cosmopolitismo

Pretendemos analisar a imagem do cosmopolitismo mineiro a partir de uma cartografia sensível dos espaços da cidade de Belo Horizonte e de sua relação com os fenômenos da moda e da antimoda. Para tanto, faremos um recorte entre dois séculos: 1920 a 2020. O espaço citadino moderno nos oferece os elementos para observarmos as transformações na história cultural da cidade. Diante dos processos de modernização social, pontuaremos a partir da antimoda a estetização do cotidiano. Nessa perspectiva, a arte e a arquitetura são essenciais para compreendermos o papel do modernismo mineiro.

Nossa pesquisa abordará as transformações na cultura visual e a influência da moda francesa na capital;  o processo de industrialização e o desenvolvimento dos têxteis; o surgimento das boutiques e o trabalho das costureiras e modistas; as transformações da cidade e a mudança dos espaços relacionados à moda nos anos de 1960 a 1980; e a criação dos cursos de estilismo e design na capital mineira e a profissionalização do setor.

O objetivo da pesquisa é elaborar um atlas que nos possibilite compreender a cultura material e visual entre dois séculos de moda ou da antimoda em Belo Horizonte. Seguindo algumas discussões teóricas de George Simmel sobre o princípio da imitação e distinção, pretendemos apresentar as instâncias da difusão dos modismos e a introdução de novos modos de vida que sugerem o princípio dos movimentos de estilo. Assim, analisaremos o trabalho relacionado ao estilismo e a transformação do vestuário, tendo como diretriz a instância da criação em design de forma a contextualizar os cenários e problematizar a autonomia e sensibilidade dos usuários.

Seguiremos, igualmente, a leitura de Roland Barthes a respeito dos conceitos de diacronia e sincronia para, observando as correspondências entre as décadas, tecer constelações históricas de 1920 a 2020. Entre o passado e o presente, analisaremos o trabalho das modistas, costureiras, alfaiates, estilistas, designers, fotógrafos, stylists, produtores, diretores de arte e modelos, de pensar o cenário em Minas Gerais.

A dinâmica da moda e da antimoda não somente reflete a transformação do tempo, ela confirma as afirmações de Walter Benjamin de que, ao analisarmos os sonhos das gerações que nos antecederam, nós acessamos um sonho de futuro. O belo como horizonte é, portanto, parte dessa promessa. Contudo, o horizonte de beleza em que iniciaremos a nossa pesquisa é diverso. Ele traz em seu cerne uma dimensão temporal que unifica, como nos ensinou Baudelaire, o transitório e o eterno. A imagem do cosmopolitismo mineiro propõe um novo horizonte para o belo, o qual potencializa os valores telúricos na medida em que explicita a complexidade de sua poética universal.

Sociologia mineira e sua aposta na empiria

André Junqueira Caetano

Sociologia mineira e sua aposta na empiria

Tanto sertaneja quanto cosmopolita, Minas se constituiu em entreposto de uma nação que se formava, com culturas migrantes de diferentes cantos de um país continental, integrando ciclos agrícolas, mineradores, industriais, comerciais, intelectuais e culturais. Assim foi também na sociologia. Para a sociologia das desigualdades e estratificação no Brasil, muito se desenvolveu nas, a partir das e com as Gerais. Se suas serras alterosas revelam contrastes, suas formações e transformações sociais os refletem. Um eixo relevante nessa formação é a contribuição da produção sociológica mineira para o desenvolvimento do diálogo de ensaios e teses acerca da formação do Brasil com uma nova pesquisa com raízes empíricas e largo uso de métodos quantitativos. A reflexão sobre o Brasil ganhava números, amparos estatísticos, dados robustos e um vasto lastro na observação de cotidianos contrastantes em larga escala. Devemos a Minas Gerais uma significativa contribuição para o desenvolvimento de pesquisas de surveys; investigações comparativas; modelos com inferência regional, nacional e internacional; ciências sociais aplicadas e a abertura do cenário brasileiro a novos métodos, técnicas e instrumentos empíricos.

Nesse diálogo, observa-se também o traço do cosmopolitismo mineiro ao se constatar que, ontologicamente, Minas revela-se como um resumo do Brasil e o Brasil se encontra, ou se redescobre, em Minas. Minas sempre acolheu grupos e fluxos migratórios de diferentes regiões, também por ocupar posição geográfica, política e econômica que tangia tais movimentos: do Nordeste ao Sudeste, da antiga capital à nova, da “República do café com leite” à “Nova República”. As múltiplas regiões de Minas refletem características de suas fronteiras. O Sul de Minas assemelha-se a São Paulo. O Norte, ao Nordeste do país. O Triângulo lembra o Centro-Oeste e o Sertão reflete a nova fronteira agrícola. Contrastes também em suas cidades, com centros densamente forjados, como a capital; muitas áreas rurais e pouco povoadas; além de várias importantes cidades de médio porte, que operam como “capitais regionais”. Somam-se desigualdades econômicas e sociais profundas, como o pobre Vale do Jequitinhonha, com indicadores entre os menos desenvolvidos do país, à afluência econômica agrícola do Triângulo, além de outras tantas cidades e microrregiões que estão entre aquelas com maior IDH do país. Estudar e compreender Minas Gerais permite vislumbrar sinteticamente processos em curso no conjunto do país, como migrações, diminuição/elevação de desigualdades, entre outros com relevância para políticas públicas.

Esse traço revela características da sociologia desenvolvida nesses contextos, baseada na mobilização de suporte empírico para, junto das tradições do pensamento social, desenvolver uma sociologia aplicada com relevância e destaque internacional. Assim ocorreu em áreas de pesquisa como violência, avaliação e gestão da educação, ciência política e pesquisas eleitorais, além da sociologia e economia rurais. Alguns dos mais importantes centros de pesquisa social no Brasil nasceram assim e se tornaram referência para o diálogo com a sociologia no mundo, como o CEDEPLAR, o CAEd, o CRISP, além dos centros e departamentos em Viçosa e Lavras, dedicados à sociologia rural, e outros núcleos que se internacionalizaram como porta-vozes de uma reflexão nacional, feita a partir de larga empiria e profundo conhecimento local.

A partir dessa reflexão, apresentamos duas propostas:

1) Análise quantitativa de dados socioeconômicos, populacionais e de comportamento político, que demonstrem como os resultados obtidos para o estado de Minas Gerais refletem aqueles esperados para o país, indicando, assim, que Minas Gerais pode ser vista como uma “proxy” do Brasil. Neste caso, propomos focar em alguns tópicos relativos à área de estratificação e desigualdades, como educação, padrão de vida, juventude, além de comportamento político. Para tanto, serão utilizados modelos estatísticos.

2) Pesquisa qualitativa com um grupo de sociólogos mineiros que tiveram formação nos EUA e foram responsáveis pela “sociologia empírica” – uma marca da sociologia praticada em Minas –, e que, ao migrarem para diversos estados, consolidaram um fazer sociológico em todo o país. Alguns nomes considerados neste momento são: Simon Schwartzman, Olavo Brasil de Lima Junior, Renato Boschi, Elisa Reis, Bolívar Lamounier e Vilmar Faria. Contemplaremos também a criação do Curso de Métodos Quantitativos, que se estabelece na UFMG sob a liderança de Neuma Aguiar e de dois sociólogos de outra geração que vieram do Recife para a UFMG: Daniele Cireno e Jorge Alexandre. A metodologia adotada será de entrevistas em profundidade diretamente com os pesquisadores citados. Para acessar informações sobre Vilmar Faria e Olavo Brasil de Lima Júnior, propomos entrevistar Fernando Henrique Cardoso e Renato Boschi, respectivamente. Os nomes não se esgotam nos apontados aqui, uma vez que a técnica de snowball permite que novos atores surjam no decorrer das entrevistas.

3x Minas Mundo: escritas de si no memorialismo modernista mineiro

André Botelho e Lucas van Hombeeck

3x Minas Mundo: escritas de si no memorialismo modernista mineiro

Queremos estudar a figuração do indivíduo e de processos sociais de subjetivação a partir de uma “escrita de si” no que chamamos provisoriamente de memorialismo modernista mineiro – MMM. Especialmente nos e a partir de textos de três autores centrais: as Memórias de Pedro Nava, em particular Baú de ossos (1972) e Balão cativo (1973); Boitempo (1968) e Menino antigo (1973) de Carlos Drummond de Andrade; e A idade do serrote (1968) de Murilo Mendes. Chamamos a atenção para o conflito tênue, mas decisivo entre indivíduo e sociedade nesses textos: uma subjetividade em busca dramática, não raro trágica, de individualização em meio à cultura objetiva representada pela família (a chamada “tradicional família mineira”) e pela sociedade e o Estado, inclementes estruturas de poder. Por certo, e isso é parte dos problemas empíricos e teóricos centrais da pesquisa, esse conflito parece ser crucial não apenas no MMM, mas também noutros textos de autores mineiros, como Cyro dos Anjos, Afonso Arinos, Lúcio Cardoso, Otto Lara Resende etc.

As figurações do conflito entre indivíduo e sociedade no MMM são a nosso ver indícios empírico-textuais de uma surpreendente construção social cosmopolita da diferença cultural brasileira. Cosmopolitismo relacionado à urbanização precoce de Minas Gerais, comparativamente ao restante do Brasil, a qual também ajuda a compreender o surgimento, no século XVIII, de uma literatura tão distintiva, com acentuado “cunho de universalidade” e um “gosto particular pela narrativa em primeira pessoa” – para lembrarmos “Poesia e ficção na autobiografia” (1976) de Antonio Candido.

A abordagem comparativa proposta toma como ponto de partida a codificação desse conflito em cada texto e no uso que se faz dos dispositivos disponíveis para essas escritas de si em diferentes gêneros – a prosa, a prosa poética, o poema. Assim, a partir de tópicas comuns que atravessam os textos, como a infância, a amizade, a sexualidade, entre outras, será possível perceber na prática desses escritores modernistas a operação não apenas do comentário direto sobre aspectos da relação indivíduo-sociedade, mas também do gesto literário de reescrita – em tensão e submissão, repetição e subversão – de gêneros associados à narração de si.

Mapear as camadas dessa reescrita cosmopolita e compor um repertório de formas de subjetivação figuradas no MMM ajudará a qualificar na literatura percursos e sequências de problemas formais e sociológicos duradouros. Afinal, as narrativas modernistas de si parecem simultaneamente contrariar e reforçar a individuação numa sociedade em que, historicamente, tanto a categoria de indivíduo desempenha papel problemático nas identidades sociais (não tendo perdido inclusive sentido pejorativo no cotidiano), quanto são cada vez mais recorrentes as representações da família como unidade moral da sociedade.

Por fim, mas não menos importante, aproximando o campo problemático das intepretações do Brasil de textos e práticas de escritas de si, poderemos ainda problematizar as relações entre individualismo e cultura política, centrais para a reflexão sobre dilemas históricos da sociedade brasileira recolocados de modo agudo na crise da democracia em curso.

Imagem e palavra: o CEC e a Geração Complemento

Andre Veiga Bittencourt

Imagem e palavra: o CEC e a Geração Complemento

O projeto de pesquisa pretende se debruçar sobre uma geração de intelectuais mineiros, sediada em Belo Horizonte nos anos 1950 e início de 1960, que se constituiu especialmente em torno de duas experiências coletivas: o Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e a Revista Complemento. Ainda que nem todos tenham participado dos dois grupos, por eles passaram figuras como Maurício Gomes Leite, Jacques do Prado Brandão, Silviano Santiago, Theotonio dos Santos, Ezequiel Neves, Klauss Vianna e Ivan Ângelo.

Alguns aspectos parecem particularmente interessantes nesse período e nesses grupos e funcionarão como um conjunto preliminar de questões para a pesquisa: 1) sua forma de discussão intelectual, ao menos inicialmente, se deu ao redor da cultura cinematográfica, a partir do cineclubismo, tendência esta que, mesmo remetendo ao final dos anos 1920, ganha força mundial no pós Segunda Guerra. Além dessa sociabilidade específica, pensar o cinema envolverá refletir, por um lado, sobre as implicações da imagem como forma e linguagem e, por outro, sobre o eventual peso que a comunicação e a cultura de massa assumia para essa geração – levando-se em consideração as possíveis tensões que os chamados cinema comercial e de arte jogavam naquele contexto; 2) seus integrantes não se restringiram à literatura, o que os diferencia de outras gerações intelectuais anteriores, abrangendo várias áreas artísticas e culturais como o cinema, a dança, o teatro e as artes plásticas; 3) de acordo com depoimentos dos participantes, essa geração depositava uma especial predileção para o que poderíamos chamar de pauta dos costumes ou comportamentais, que também se difundia na Europa e nos Estados Unidos naqueles anos, tais como o debate sobre as diversas sexualidades, o rock and roll e a própria boemia enquanto um estilo de vida.

Tendo isso em vista, desde um ponto de vista sincrônico está no escopo desta pesquisa situar essa experiência particular levando em consideração outros grupos que, no Brasil e no mundo, também estreitavam relações com o cinema e a cultura de massa, cuja incorporação nas técnicas e concepções do fazer artístico e intelectual começava a ser central justamente naquela década. Já de um ponto de vista diacrônico, a pesquisa buscará traçar relações dessa geração belo-horizontina dos anos 1950 com outras gerações intelectuais mineiras, especialmente os modernistas de 1920 e a chamada Geração dos anos 1940, procurando compreender as proximidades em termos de legados, passagens e também de rupturas operadas.

O pensamento visual de Humberto Mauro

Anderson Ricardo Trevisan

O pensamento visual de Humberto Mauro

Esta pesquisa se propõe a analisar alguns filmes realizados pelo diretor mineiro Humberto Mauro dentro do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), criado em 1936 no Rio de Janeiro por Gustavo Capanema. Nesse espaço foram produzidos cerca de 400 filmes educativos, dos quais mais de 300 traziam a assinatura de Mauro sobre os mais variados temas, como ciência, educação rural, personagens históricos, músicas folclóricas, literatura etc. Nesse vasto universo temático, temos a um só tempo o olhar pitoresco, que nos remete à vida rural, e o olhar da ciência, que visava mostrar o progresso e a modernização tecnológica, valores caros às políticas do Estado Novo. Os filmes de Mauro oscilam entre a tradição e o moderno, algo não estranho ao movimento modernista de 1930, que era fomentado pelo Estado e vinculado à busca das “raízes” da nacionalidade brasileira. Em uma época em que artistas eram enviados para Minas Gerais à procura de tais raízes, Mauro já vinha pronto nesse sentido, e seus filmes podem ser reveladores dessa estrutura de sentimento. É apressado, porém, rotulá-lo de modernista, muito menos nos moldes do modernismo mineiro da Revista Verde. Isso porque o cinema produzido por Mauro é carregado de ambiguidade e complexidade, como se fosse o elo entre dois mundos distintos: o da tradição, marcado pelo mundo rural, e o moderno, vinculado ao progresso e à ciência. Talvez ele seja um bom representante desse modernismo dos anos 1930, também ele pleno de ambiguidades. No entanto, na base dessa ambiguidade está o interesse em construir visualmente uma nação, algo que também podia ser percebido, respeitadas as proporções, em diversos países da Europa e América do Norte que, na mesma época, viam no cinema educativo um modo de fortalecer o sentimento cívico e o nacionalismo. Concebidos a partir dessa ideia, os filmes de Mauro podem ser lidos como parte do pensamento social brasileiro, construídos em termos de um pensamento visual (para lembrar Pierre Francastel, A realidade figurativa), e é nessa chave que pretendo analisá-los. Para tanto, minha contribuição ao projeto coletivo será investigar o modo como se dá essa relação entre o tradicional e o moderno e, particularmente, a noção de progresso que se constrói a partir dos filmes de Mauro, especialmente os de divulgação científica e os de educação rural. Em tempos como o nosso, em que há uma negação da história e do conhecimento científico e uma fragilização da própria democracia, é relevante tentar compreender como, a partir das investidas de um Estado totalitário, isso era um valor.

O pensamento visual de Humberto Mauro

Anderson Ricardo Trevisan

O pensamento visual de Humberto Mauro

Esta pesquisa se propõe a analisar alguns filmes realizados pelo diretor mineiro Humberto Mauro dentro do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), criado em 1936 no Rio de Janeiro por Gustavo Capanema. Nesse espaço foram produzidos cerca de 400 filmes educativos, dos quais mais de 300 traziam a assinatura de Mauro sobre os mais variados temas, como ciência, educação rural, personagens históricos, músicas folclóricas, literatura etc. Nesse vasto universo temático, temos a um só tempo o olhar pitoresco, que nos remete à vida rural, e o olhar da ciência, que visava mostrar o progresso e a modernização tecnológica, valores caros às políticas do Estado Novo. Os filmes de Mauro oscilam entre a tradição e o moderno, algo não estranho ao movimento modernista de 1930, que era fomentado pelo Estado e vinculado à busca das “raízes” da nacionalidade brasileira. Em uma época em que artistas eram enviados para Minas Gerais à procura de tais raízes, Mauro já vinha pronto nesse sentido, e seus filmes podem ser reveladores dessa estrutura de sentimento. É apressado, porém, rotulá-lo de modernista, muito menos nos moldes do modernismo mineiro da Revista Verde. Isso porque o cinema produzido por Mauro é carregado de ambiguidade e complexidade, como se fosse o elo entre dois mundos distintos: o da tradição, marcado pelo mundo rural, e o moderno, vinculado ao progresso e à ciência. Talvez ele seja um bom representante desse modernismo dos anos 1930, também ele pleno de ambiguidades. No entanto, na base dessa ambiguidade está o interesse em construir visualmente uma nação, algo que também podia ser percebido, respeitadas as proporções, em diversos países da Europa e América do Norte que, na mesma época, viam no cinema educativo um modo de fortalecer o sentimento cívico e o nacionalismo. Concebidos a partir dessa ideia, os filmes de Mauro podem ser lidos como parte do pensamento social brasileiro, construídos em termos de um pensamento visual (para lembrar Pierre Francastel, A realidade figurativa), e é nessa chave que pretendo analisá-los. Para tanto, minha contribuição ao projeto coletivo será investigar o modo como se dá essa relação entre o tradicional e o moderno e, particularmente, a noção de progresso que se constrói a partir dos filmes de Mauro, especialmente os de divulgação científica e os de educação rural. Em tempos como o nosso, em que há uma negação da história e do conhecimento científico e uma fragilização da própria democracia, é relevante tentar compreender como, a partir das investidas de um Estado totalitário, isso era um valor.

“Sou do mundo, sou Minas Gerais”: Milton Nascimento e os baianos

Maurício Hoelz

“Sou do mundo, sou Minas Gerais”: Milton Nascimento e os baianos

“Sou do mundo, sou Minas Gerais”. O verso, retirado do LP Milton de 1970, parece condensar o tema do projeto Minas Mundo, ao sugerir que tanto a pertinência ao universal se realiza pela afirmação da diferença, quanto, nesse caso em particular (com o perdão do jogo de palavras), o próprio particular (Minas) contém o geral, ou os Gerais (mundo). Ora, evocando palavras clássicas de Antonio Candido, não é essa “dialética rarefeita” entre localismo e cosmopolitismo que define a dinâmica específica da experiência cultural em países coloniais como o Brasil? A propósito, quão simbólico (ou sintomático, dependendo da chave de leitura) não é o título da canção, “Para Lennon e McCartney”? Uma dedicatória aos dois principais ícones e ídolos de um dos maiores fenômenos – então no seu auge – da história da cultura pop mundial (que, naquele mesmo ano, chegaria ao fim). Lembro, aliás, que versos anteriores da mesma música cantam “Eu sou da América do Sul/Eu sei, vocês não vão saber”, vocalizando a “assimetria de ignorância” – a desigualdade e a invisibilidade – que marca a hierarquia de discursos na geopolítica internacional e, logo, a dependência cultural do Sul global, como se diria hoje – esse lugar de fala em que os autores da música fizeram questão de se situar.

A partir desse tema, pretendo estudar a trajetória e a obra de Milton Nascimento como uma possível figuração do cosmopolitismo mineiro na cultura brasileira, contrastando-a ao que me parece constituir um outro tipo de cosmopolitismo, cujos vetores (e avatares) são os tropicalistas baianos, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Cada um a seu modo, esses três artistas incorporaram na linguagem musical elementos do que havia de mais moderno em circulação pelas metrópoles do mundo filtrados à luz das tradições e inovações locais, produzindo uma estética cosmopolita que ganha expressão “formal” no repertório sonoro; nas letras e títulos das canções; nas capas de discos; nas parcerias, regravações e turnês internacionais; nas performances no palco e na concepção dos espetáculos.

Para dar apenas o exemplo do mineiro, Milton combina e experimenta com, entre outros elementos, o jazz norte-americano, o samba-jazz, o rock, a bossa nova, os cantos de trabalho dos negros escravizados, a música ritual dos índios, a herança da arte religiosa barroca e da música sacra das cidades coloniais de Minas, os corais do hinário cristão, os cânticos católicos e os ritmos folclóricos das festas populares, o cancioneiro da América Hispânica e a nueva trova. Saído de uma província do interior de uma ex-colônia tropical localizada na periferia do Ocidente, o mineiro realiza a “travessia” do mar “de dentro” de Minas rumo à terra prometida da celebridade internacional e se proclama “cidadão do mundo”.

A hipótese preliminar que eu estou construindo encontra uma pista no episódio polêmico – a ser rastreado em materiais da época – em que os baianos teriam afirmado que os negros e os “tambores de Minas” (nome de espetáculo de Milton de 1997) foram domesticados pela Igreja Católica. Prepondera aí uma preocupação com as supostas raízes autênticas da cultura e com a identidade (e a unidade, ainda que uma “geleia geral”, no título da canção de Gil) dela. Isso implica um tipo de cosmopolitismo autocentrado nas experiências híbridas de “origem” e que opera como uma espécie de atualização (de acerto dos ponteiros do relógio) e de compatibilização da cultura autóctone singular com o moderno (representado pelos países centrais), por meio da importação das inovações internacionais. Basta lembrarmos da junção do ponto de macumba com a guitarra elétrica na música dos tropicalistas. Trata-se, portanto, de um cosmopolitismo mais voltado para dentro, cujo sentido é afirmar a originalidade da diferença, ao passo que o mineiro, a meu ver mais centrífugo, estaria mais voltado para fora e para a universalidade diferencial, vamos dizer. Nessa visão o cosmopolita não é o polo oposto ao local (ao provinciano) – não há aqui “sentimento dos contrários” (para retomar a expressão do mesmo Antonio Candido). E sim um tipo de relação descentrada de convivência com o universal e as multiplicidades a partir das diferenças, que implica movimento e abertura em várias direções. Raízes da Bahia, rizomas de Minas.